11 agosto 2008

Há algo acontecendo

Resolvi fazer um dia de silêncio, mas sem exagero.
Um silêncio só de certas coisas, tão bobas,
que nem vale aqui a pena falar.
Se me perguntarem o objetivo de tal silêncio
direi que não sei.
Mas há algo acontecendo,
como uma mentira que vai se alojando no coração,
como uma coceira nos omoplatas,
o suporte da fantasia machucando
mas as asas se abrindo sobre a cabeça.
Isto é o que digo em certas dificuldades de explicação.
De outro modo digo do desejo de me abrigar
em sombras de árvores sem poeira nas folhas,
e mais não digo. Se tenho resultado desse silêncio
também não sei dizer, talvez mais tarde
quando a lua se levantar.
Mas ele já me cobre como um cobertor em dia de frio
com uma multidão de palavras guardadas ao longo dos anos.
A quentura delas sinto bem forte em toda a pele,
mas especialmente sobre os rins, sobre o fígado, sobre os pulmões.
Também me ardem os pés e os punhos.
Nos punhos sinto um abalo, um prazer,
um gozo, um contentamento que de tão rápido torna-se dor.
Então as palavras se derramam, entornam,
falam de visões de gente que nunca vi,
que não sei se viveram ou se vão viver,
e marcam minha insanidade em dizer poemas.
Meus poemas são mudos.

4 comentários:

F. S. Júnior disse...

todos nós devíamos fazer certos silêncios... seria sempre bem-vindos... gostei muito deste.

mundo azul disse...

Sim! Momentos de silêncio, nos trazem lembranças, procuram no fundo das gavetas, a fim de colocar uma ordem nos pensamentos...São extremamente benéficos!

Muito lindo o seu poema, bastante reflexivo!

Beijos de luz e um dia feliz...

Fernando Rozano disse...

no silêncio quebramos a mudez, inclusive a dos versos. grande abraço, dauri.

Jânio Dias disse...

Seus poemas são gritos insanos de beleza no claro e no escuro.