20 março 2008

Fragmentos apócrifos

Volto para Cafarnaum sem o consolo da devoção,
o incenso que queimei em Jerusalém subiu sem oração.
Não me foi expiatório o bode que ofereci.
Me queimam os olhos estas paisagens áridas
e os desertos rugem em leões viscerais
que me sobressaltam nas madrugadas.

Vejo o que eu não via. Sei e dói saber. Saber por mim mesmo.
Tu queres que eu saiba. Está bem! Olho como ensinaste
- pura lógica com ternura de um olhar em demora – e vejo;
e este olhar até me confere certo ar de vidente
que, por vezes, me corroe o sonho pela vaidade.

O outro ensinamento eu até tento, não sei observar:
permanecer feliz a despeito do que me fizeste enxergar.

4 comentários:

Moacy Cirne disse...

Grato pela visita ao Balaio. Vejo que o seu blogue merece leitura com atenção; pretendo fazê-lo, voltando com calma. Pretendo fazê-lo, voltando mais vezes. Vi que você é de Vitória, o que me faz lembrar um personagerm de quadrinhos: "Marly", criação capixaba. N unca mais soube de suas andanças. Abraços.

F. S. Júnior disse...

enxergar é para poucos, vem com o tempo, com os ensinamentos, com as quedas, com o devorar do fruto proíbido...

Filipe Garcia disse...

Que bacana isso aqui! Poesia sedimentada na Palavra.

Gostei demais.

douglas D. disse...

enxergar, cega
quando presos à fé
horda que são
os que esperançam.