21 dezembro 2007

Maças e percevejos

(Nos comentários a respeito do "Esse truque" a Jacinta fez referência
a esse outro poema. Decidi então publicá-lo novamente aqui)

Me dobrei de dor,
de não saber,
de querer saber.
Nessa luta que não acaba,
poder que perdi.
Ganho que tive foi ser
sei lá, quem se vê.
Me vi sozinho aqui
e não tive outro sonho
senão o que me acordou
enquanto me perguntava
quem eu era,
ora essa!
Quem era esse
Eu.
Me dobrei mais que pude.
(Sentir a dor
me é dado poder).
Me dobrei por dentro
e apareci por fora
e descobri na hora
replicada em tantos instantes
que sou um feixe
desarranjado de linhas,
emaranhado de desejos,
maçãs e percevejos.

2 comentários:

Flavia disse...

Me dobrei em dois me lembra Clarice:

“Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.”

Bjs!

Jacinta disse...

Saber-se assim: "...Que sou um feixe desarranjado de linhas, emaranhado de desejos, maçãs e percevejos" e mesmo assim, continuar buscando, aproveitando o que é bom nesse (des)arranjo da vida.
É...
perder, também, é uma escolha

Jacinta