12 outubro 2007

Sem sentimento

Palavras que não desvelam mistérios,
nada ensinam, nem emocionam,
nem rimam, é o que aqui
em atenção a outras coisas, deixo entornar
como leite fervido sob a guarda de um menino.
Nem sei se é, mas pode. Quem sabe seja
uma tentativa de distinguir coisas que se sente,
que não seja sentimento.

Depois de viagem longa recolhendo olhares,
redondeei o mundo e cheguei no mesmo porto.
Os fardos que descarrego apressado de tanta gente
são re-sentidos sentimentos. Assim ressecados
se tornaram outras coisas, pedras,
cobras, fogo, punhais, peçonha, dores,
granadas, pensamentos doidos, poemas.

Mas, maravilhosos são os dias em que se tem
- este talvez seja um deles -
o contentamento de viver preenchido,
sem sentimento,
sentindo outras inomináveis coisas.

Um comentário:

Pedro Canal disse...

Todo o sentimento... É essa a sensação que tenho quando leio o seu texto. Esse comentário vale para toda a produção postada neste blog.
Não conhecia ainda esse lado escritor, poeta, mas conhecia um pouco da sua sensibilidade, que transborda como fonte a saciar a sede daqueles que têm coragem e prazer em se emocionar. Obrigado!