19 setembro 2007

Se não posso ser muitos, o mesmo é que não serei

Quando as letras se levantarem no horizonte em frases
trançarei em vingança cada palavra na areia para ver
o que restará quando a maré encher
e levar, apagar, essas letras desgarradas
que se negam a construir meus outros eus
visto que decidi ser mais que um
e escrever vários poemas ao mesmo tempo.
Mas meus olhos se gastam nesse azul lindo sobre o mar
e me canso das madrugadas não dormidas
acocorado sobre o morro dos reis magos
esperando essas letras que demoram além da paciência.
Embravei-me e desorientado digo,
não procurarei mais nenhuma palavra,
pois que há outro perigo em avizinhamentos
a me pedir urgência em decisões.
Não darei distinção a nenhum sentimento
só escutarei e perscrutarei o que vem subindo,
aparecendo, tecendo uma rede, alinhavando o chumbo nas franjas
e que se arremessa ligeiro sobre um corpo que é o meu,
peixe que sou eu preso de mim mesmo,
vazio de novas, distintas, líricas expressões.
Porém, tenho nas mãos um canivete afiado pra romper essa trama.
Aproveitarei as linhas e debocharei das palavras, que já serei outro
com asa e tudo, pronto pra me mandar.
Se não posso ser muitos, o mesmo – presa fácil – é que não serei.
Haverei de pegá-las no ar e acertarei contas com elas,
escrevendo naquelas linhas entrecortadas um conto sem sujeito
e morrerei de rir.

Um comentário:

Eurico disse...

Lutar com as palavras...
a luta mais vã drummondiana;
e já lutavas, né.