10 março 2011

Inesperado sol

59

As mãos, aquelas mãos segurando as chaves, eram as do filho, não as chaves, mas as mãos, suas mãos, tinha certeza, que certeza?, questionou a voz, assim, ossudas, brancas, delgadas, transpiravam vacilos e medos, coitado, amava-o tanto, único filho, meu filho, por onde andas?, vieram tuas mãos, oh meu Deus, vieram, irei, ainda não, interpos-se a voz, não irás, ainda não, cala-te e olha, que é o que podes, olhar, o que te é permitido, enfeito-te por ora o que vês com umas neblinas doces, uma luz filtrada de vitral de cores mansas, e nada mais agora, depois talvez uma condescendência te seja oferecida, um tempo de uma rosa, ouviu atenta Estelida e se contentou, um passo entre a resignação e a falta de forças, o trem na estação preparava-se para a longa travessia do vale, silenciara o tinir do martelo nas engrenagens do trem, avistaria o rio por todo o percurso, iria numa poltrona do lado direito do vagão e avistaria o rio, se bem que, se bem que há lugares tão bonitos do lado esquerdo de quem vai, mais bonitos, mas não o rio, o rio ficaria à direita, queria o rio, trocaria tudo pela visão do rio, avistaria alguns barqueiros remando em águas barrentas e o outra margem, avistaria a outra margem, os sítios e as casinhas lá onde a vida vai seguindo de algum modo, entre cantos tristes enquanto se lida com o chão e o sol, enquanto se banha em suores de terra quente em trabalhos e lutas e filhos e brigas, e sexo à noite em cama mal acolchoada, uma desolação para quem passa, mas quem ali vive nem se apercebe de suas tristes vidas, são imersos todos na placidez da rotina e de suas dores, a outra margem nada mais é que um lado, mais um lado disso tudo que vês, disse a voz, disso tudo que vivo, pensou Estelita. Queria levantar a cabeça num pequeno ângulo do pescoço para alcançar o rosto, como custava olhar para cima!, o rosto não é dele, não te confudas, não te iludas, não te apavores, que te contentes com o ver as mãos, tece tuas roupas de despedidas com os fios de felicidade que vem destas mãos com as chaves que enxergas, dizia a voz sem rancor e sem amor, dizia a voz assim, etérea, um traço de vento misturado com o chilrear de pardais.

08 março 2011

Inesperado sol

58

Ouvia um bater de martelo em ferro, Estelita ouvia um tinir que se associava a viagem, uma pétala arranhada, um pouco amassada, deslocada do conjunto da rosa, ia sendo retirada por uma mão leve e decidida, via nitidamente, a outra pétala, sua próxima, era deixada, via por um olhar que se esconde por detrás do olhar, por detrás da retina, por detrás do corpo onde corriam filões de ternura resistente, ternura por todos os que estavam ali e pelos outros, sentia vontade de dizer obrigado pela presença dos amigos, estava numa estação, o trem ia partir, da estação se leva uma alegria e várias tristezas, ouvia uma voz, mas logo as tristezas serão preenchidas por paisagens ligeiras, passando, passando, ficará a alegria manchada de tristeza até o tempo apagar as duas, era o repique como de um sino, não tão límpido como de um sino, mas bonito pelo compasso, alguém que ia com um martelo batendo nas rodas do trem antes da partida, um teste, um carinho repetido muitas vezes por um funcionário da ferrovia sabedor de suas responsabilidades, o aroma de plantas amanhecidas de um suave frio invadia suas narinas, Estelita respirou um pouquinho mais profundamente, todos se entreolharam naqueles silêncios mesclados de melodiosos rumores que vinham lá de fora, uma voz e outra, aqui e acolá, um passarinho também, qual seria?, passarinhos de meio de ano, ainda não, ainda abril, nascera em setembro, não gostava de abril, ainda media o tempo, mesmo que usando uma linha frouxa, mas media, sabia que era abril, seria em abril o seu dia, outro dia, aquele que se contrapõe ao primeiro, queria segurar-se até maio, neblinas frágeis chegavam, dizia a voz, mas logo haveriam de se dispersar com a luz do sol.

07 março 2011

Inesperado sol

57

Dias foi entrando pela casa adentro seguido por Augusto, logo encontraram a avó a perguntar por que ainda não tinham ido buscar o padre, o gerente se intrometendo como a saber de urgências mais que os outros foi dizendo que seria melhor levá-la a um hospital, nisto chegavam ao quarto, os olhos se deram uns com os outros em silêncio repentino, os olhos da mulher, ponte sob neblina, deitou-se como um sol no poente sobre o gerente, e ele compreendeu o apelo de urgência para que trouxessem o padre, as chaves na mão silenciosa tremiam de leves movimentos. Pousavam asas dos olhos da mulher sobre os que estavam ali, Dias observava em silêncio, bandos de mansidões, pássaros benfazejos que demarcavam campos onde um vento inesperado ondulava em danças o arrozal maduro de muitas espigas. Dias encolheu-se num canto e viu, imaginou, sentiu que se fixavam os olhos da mulher depois de uma revoada sobre todos como foco de lanterna caída ao chão sobre um único ponto, o molho de chaves que tilintava nas mãos ansiosas do gerente, não que ela assim o quisesse, a lanterna caída e imóvel jogava o foco ali, nada mais.

05 março 2011

Inesperado sol

56

Foram apressados na direção dos escritórios gerais onde estava a caminhonete, Dias se concentrava no pedido da avó, o andar quase correndo do gerente dava-lhe um sentimento de que ia conseguindo o que almejava, antes que supunha, aquela amizade, uma intimidade de parceiros, seguia-o, queria manter-se nos passos ao seu lado, mas não conseguia, não por não ter pernas para isso, mas porque algo, um pensamento se infriltava por entre seus respiros para dizer em voz baixa que ele deveria adotar um rítmo de alguns passos de atraso em relação aos dele, era melhor, sentia uma excitação, uma alegria e um desepero, tinha o que um momento pode dar mas também a sensação de que logo fosse tudo perder, como se a solidão rompida por uma longa rachadura instantaneamente se refizesse, peça única e inteiriça, ainda mais pesada, olhava o andar daquele homem, seu corpo, achava-o ainda mais bonito em movimento, almejava semelhanças, haveria umas semelhanças, haveria de descobrir e ficariam ainda mais próximos um do outro, mas voltava o pedido da avó a bater-lhe na mente, condenava-se por não se libertar daquela idéia estúpida e romântica, mais romântica do que estúpita, acertou seus pensamentos, devia esconder-se ainda mais, deixava rastros no entanto, sempre, fazer o quê? Enquanto deu a volta para entrar na boléia pelo outro lado o gerente já tinha dado a partida no carro que roncava forte, era como se fossem fugir, a cena comum, mas sempre bonita, capaz de despertar nos olhos de quem assiste um sentimento terno, o carro indo pela estrada afora, levantando poeira, e eles embriagados de alegria, rindo, rindo, rindo, juntos deixando tudo para trás, cheios dos desejos de vida, de aventura, a cena se desfez, ao ronco em ondas do motor se somou a pergunta do gerente sobre onde a tal mulher morava e Dias respondeu que tinham que ir logo até a Igreja de São Pedro buscar o padre como lhes fora pedido. Que padre que nada, respondeu Augusto, vamos até a casa dessa senhora, é melhor levá-la ao médico.

19 fevereiro 2011

Inesperado sol

55

Tinha esperança, mesmo na negação do que desejava tinha esperança de um momento na ilha, e esta idéia nem lhe passara pela cabeça até que o gerente apontasse para lá com curiosidade, o que desejaria ele naquele passeio?, podia ser a curiosidade insípida de quem não tem o que fazer num domingo, ou não, um momento naquela ilha com o gerente, não queria aliar uma história com outra, a que vivia agora e aquela com o estivador, insuportáveis lembranças, mas gostava da ilha, misturava, dividia-se em vacilos, chamá-lo de Augusto, forçar nas palavras o primeiro passo da intimidade, ou senhor Augusto ou senhor gerente, mas os meninos traziam-lhe um alívio, um recado, uma contrariedade, os sentimentos se adensavam em junções, de través, os sentimentos sempre são travessas sobre as quais se colocam telheiros, sonhos de abrigo. Fala menino, o que houve, por que este desespero? Sua avó pediu pra você ir buscar o padre lá na igreja de São Pedro, dona Estelita está morrendo, disse pra você pedir ao gerente o favor de ir  de carro, rápido, podemos ir também? falava o capitão já sem tanta ofegação, interessavam-se pelo passeio, ainda não se davam conta dos extremos da linha, tão vivamente seus novelos de vida estavam trançados, aglomerados de voltas e extensão, que não se davam conta das extremidades, do começo lá onde não sabiam, e fim, fim inalcansável e inexistente ainda, a roda gira, gira, as engrenagens não param, nem Santa Catarina consegue. Dias olhou para o gerente, este tinha os olhos naufragados, barco afundando em águas paradas não de calmaria, de placidez, mas da quietude de dias fortemente nublados quando as sombras das nuvens iludem de paz o embate, olhava para os meninos sem ouvir, sem se interessar pela agonia de morte daquela pessoa, mas logo, de salto, pos-se de pé e tomou a chaves, junto as quais tinha agregado a da ignição do carro e, vamos!, disse decidido, foi andando.

17 fevereiro 2011

Inesperado sol

54

Além do pedido do gerente veio o silêncio, o silêncio, a sombra, o sol escaldante, o olhar preso em insignificantes coisas, coisas passadas e presentes povoavam a mente de ambos, sem consistência, como nuvens brancas e fluidas de leveza que ora formam um animal ora formam outro, logo formam um bicho estranho e assim sucessivavemte sem ajuste definitivo. Depois daquele intervalo, grande ou pequeno não sabia, não ouvia a pergunta que o Augusto lhe fazia, outra pergunta, sobre a ilha, em parte ouvia, Dias teve o coração contraído por uma onda, Augusto perguntava algo sobre aquela ilhota ali em frente, uma onda lhe contraía o coração ao modo de onda de temporal, forte, tirando-lhe a atenção, ou dividindo-a desigualmente, a maior parte para o próprio peito e a outra pelos ouvidos ao que se dava ali, o gerente, a onda trazia um buquê de ternura, mas ao mesmo tempo arrepio de medos indistintos. O que o senhor perguntou mesmo sobre a ilha?, refazia-se do arrepio e da sensação estranha tentando voltar à conversa. O gerente respondeu, esquece, era só uma pergunta boba sobre aquela ilha, apontou. Sim, seguiu dias, é uma ilha que ninguém sabe ao certo a quem pertence, deve ser do governo, o que houve ali ninguém sabe, há uma ruína, já fui lá várias vezes, arrependeu-se de ter dito isto, talvez tivesse tido de propósito, e a onda já se tinha ido e Dias se perguntava se a avó saberia explicar o que ele sentira, uns dizem que foi casa de um barão muito rico, inventava um roteiro para um filme, que ali segregou a mulher da qual tinha muitos indícios de infidelidade, outros dizem, e já era verdade, que foi casa onde ficavam os imigrantes logo que chegavam da Europa até que lhes destinassem um rumo para as colônias. Tremia Dias com a possibilidade de ir até a ilhota num barco a remo com o gerente, ficar sozinho com ele lá, não, não queria que ele lhe fizesse esse convite, lembrava das vezes ainda bem novo quando o Barroso o levava para lá, não, no início detestava, depois deu o nome de amor a aquilo, duvidava hoje, balançou levemente a cabeça na negativa, apavorava-se do desejo que voltava sem domínios, carecendo de rédeas. Eu gostaria de ir até lá, disse Augusto, tem como ver qual destes barcos eu posso usar, você vem comigo?, sabe remar? Ouviu-se um grito ao longe, Dias, Dias, eram os meninos, à frente o capitão sem pipa sem nada, seguido pelos outros três, Dias, Dias, acenavam de longe, Dias, Dias, dizia esbaforido o chefe deles já chegando e descendo pelas escadas indo até a praia e deitando-se na areia fresca na sombra da castanheira, enquanto os outros se assentavam por ali nos barcos na areia, o menor tendo ido brincar na água parecia livre da obrigação do recado.

14 fevereiro 2011

Inesperado sol

53

Enquanto conversava com o gerente, um lençol caindo sobre a cama quando a mão macia de vento faz o pouso suave e aberto do pano, Dias foi caindo outra vez na idéia de que o que acontecia era mais uma cena de filme, dessas cenas sem história de começo meio e fim, apenas quadros que depois juntaria, as cenas eram importantes não o que elas contavam, a história apareceria depois, quando dos cortes, queria estudar cinema, onde se estuda cinema? Em Nova Iorque, mas Nova Iorque fazia parte das cenas cortadas, cenas com o Barroso, talvez no Rio de Janeiro, olhou para o rapaz ao seu lado e desejou fechar a câmera, aproximar-se daquelas expressões, aproximar-se de cada vinco, de cada fio de barba, dos lábios finos e apertados, do movimento da camisa sobre o peito, ir com a câmera até ser possível sentir os odores daquele corpo, mas às rápidas, como se o diretor estivesse embriagado, o foco foi se desviando para os seus próprios pés, que balançavam ao jeito de um menino posto sentado num banco mais alto que as pernas e ficasse esperando a mãe, balançavam, balançavam num prenúncio de que alguém se atiraria na água, de que o calor insuportável da situação terminaria com uma queda n'água, desejos dominados, desejos em luta, embates árduos..., e amor?, amor se domina ou o tal domínio se exerce somente sobre os desejos?, quem sabe de amor? quem sabe o amor tenha um caminho que não aceite o domínio da vontade, o desejo é cavalo passível de adestramento, amor não, não precisa disso, ele já é certo, mestre de si mesmo, vem e vai quando bem entende, não sabia exatamente o que sentia por aquele homem, pensava Dias, mas, o que queria a avó ao entregar tais números ao gerente? poderia não ser amor, de uma hora para outra, o que poderia ser aquilo que crescera dentro dele? Tenho este molho de chaves e estes números, de nada me servem, estas chaves abrem portas sem importância, e gavetas vazias, disse o gerente, preciso entender melhor umas coisas, penso que sua avó poderá me ajudar, avise-a que preciso ter uma conversa com ela, por favor.

10 fevereiro 2011

Inesperado sol

52

Ficaram a observar o mar, os barcos e o balanço dos barcos, as aves indo e vindo, olhavam as mesmas coisas, enquanto um olhava os pássaros em volteios no céu o outro se prendia no balanço miudo de um barco ao sabor da maré, enquanto um olhava para o mangue lá do outro lado e as montanhas longe o outro olhava para a corda que segurava o barco no ancoradouro, mas estavam à sombra de uma castanheira, podiam ficar quietos e deixar o silêncio vagarosamente ir perdendo aquele peso que se deitava entre eles, a velha castanheira estendia seus galhos para bem longe do tronco e pendiam sobre a pequena praia e a mureta, tão majestosa se dobrava que era como se José de Anchieta caminhasse por ali e recebesse suas reverências. A sombra grossa dava ao lugar naquele horário, quase meio dia, um ar de desejos saciados, calmaria depois do estertor, mas uma neblina encobria tudo entre eles, uma neblina que umedecia as mentes com devoções ao silêncio como um voto, a neblina se estendeu, se estendeu, se fragmentou e se foi esvaindo. Quem é sua avó?, perguntou o gerente rompendo a nevoenta e aparente placidez entre eles. Por que o senhor me pergunta isso? respondeu Dias. Uma senhora veio me visitar bem cedo outro dia e me trouxe um papel com uns números, não entendi que números são estes, bem que procurou cofres naqueles escritórios, imaginou que fosse o segredo do cofre, preciso falar de novo com aquela senhora, disse o gerente. Com as informações que trocaram chegaram a conclusão, Dias se surpreendeu com mais aquela história protagonizada pela avó, de que a tal senhora era mesmo a avó Luzia.

08 fevereiro 2011

Inesperado sol

51

Que tudo se desfaça, os pensamentos, os planos de palavras transformadas em voz de declaração, que se desfaçam como ondas mansas nos muros, nas pedras, nas estacas, no cálcio das conchas grudadas no pier estas confissões de amor, de ilusões, esteios de sustentação, ia num ritmo só, mas não tão rápido, chegando ao cais, o ar tremia de alegria na luz como se o verão ainda se estendesse até abril. O gerente estava sentado sobre um resto de mureta, as pernas jogadas para a água sem tocá-la, talvez quando a maré subisse bem alta tocasse, talvez nem assim, olhava, olhava os pássaros indo e vindo, pássaros de mar, pensava o quê? Dias aproximou-se e sentou-se do mesmo jeito com as pernas penduras, em silêncio, espuma de águas batentes nas pedras sob os seus pés, em planos desfeitos, ondas que bordam rendas e retornam água, sem forma sem nada, conversaria qualquer coisa, mentiria e diria trivialidades. O que houve rapaz?, o gerente perguntou desconfiado, com gestos que indicavam incômodo com aquela presença ao seu lado, susto. Desculpa senhor, não quero incomodá-lo, fui ver minha avó, mas ela teve que ir às pressas ajudar alguém, saí então andando para me distrair, e aqui estou. A explicação aos seus próprios ouvidos não pareceu boa, mas que importava agora, melhor não falar mais nada, ficar quieto, suportaria o silêncio que viesse entre os dois, estranhos, eram estranhos ainda mais assim lado a lado olhando, ambos, os barcos, o mar, a paisagem emoldurada de velhas coisas dos homens, o silêncio veio, veio e se estendeu por uma planície despovoada em poucos segundos, constrangedor. Mas um vento doce soprava do mar, alivante.

05 fevereiro 2011

Inesperado sol

50

Dias desceu na mesma direção que os meninos tomaram com a pipa, numa leve e mansa inclinação do terreno coberto de capim mas logo retomou a estrada que ia para o cais que ficava a um quilômetro mais ou menos distante, talvez nem isso e seguiu. À esquerda de quem seguia para o cais, no lado oposto ao que os meninos estavam, umas vacas pastavam numa larga faixa de gramíneas que margeava um restante de mata de restinga, ali por dentro existem pitangueiras, muitos pés, colhia pitangas quando menino para a avó, enchia um embornal, outros meninos agora se encarregam disso, mas talvez não saibam colher com o cuidado que as pitangas maduras exigem, ele e a avó adoram pitangas, a avó gostava a cada colheita, de encher um litro bem branquinho, totalmente transparente, com as mais vermelhinhas, encher bem, até no gargalo, e depois, com aquele funil que ainda hoje fica pendurado com as canecas sobre a pia, pequeno funil de aluminio todo amarrotado, ia derramando cachaça até que as pitangas ficassem todas cobertas, o litro ficava bonito bonito, e a cozinha em todos os seus cantos se preenchia daquele cheiro de pitanga e de cachaça evaporada. As vacas pastavam como se o mundo girasse sobre engrenagens que recebiam do céu um fio fino, reto, constante de azeite. Uma das vacas, talvez a mais velha, magra e esmirrada, mas ainda capaz de sustentar seu bezerro, virou-se com um quase imperceptível mugido olhando na sua direção mastigando calmamente aquele mesmo capim que depois ainda mais calmamente seria regurgitado e ruminado, a vaca olhou para ele e o viu, mas não o viu, atravessou-o com o olhar, enxergou tudo de vez e ele, ele era apenas uma parte encaixada no mundo todo dos seus olhos, e como aqueles olhos abarcavam em paz todas as coisas, Dias se lembrou da avó que também magrinha, esmirrada se tinha ido às pressas ajudar alguém que se despedia da vida, a vaca se parecia com a avó, ou o contrário, participavam, ambas, de uma dança incompreensível, e talvez por isso, porque as vacas veem outros mundos, sejam sagradas na India, pensou.