04 fevereiro 2011

Inesperado sol

49

Ia caminhando não tão decidido, um vacilo se imiscuia em seus passos, mas ia, fazer a volta e retornar exigiria muito, não poderia ceder, o sol cantava alegre ao jeito de manhãs em que se vai para a praia com amigos, melhor mesmo era seguir, há um bom tempo que não ia ao velho cais, gostava de pescar por ali quando criança, mas o trabalho naquela lanchonete na cidade lhe tirava a vontade de pescar ou de fazer qualquer outra coisa no domingo senão descançar, ir à casa da avó Luzia, sentar para fumar por alí sobre uma carcaça qualquer de carro abandonado naquele fim de mundo enferrujado e ver o tempo passar, talvez no esforço conseguisse, sempre conseguia, estudar um pouco para as aulas que frequentava à noite no colégio estadual. Andar faz bem, dizia-se esta frase boba olhando o velho cais ao fundo, mas era bom mesmo andar naquela manhã, o mar sempre enfeita qualquer paisagem, mesmo quando a tristeza do abandono venha a tingir de marrons avermelhados e cinsas o brilho dos olhos, andar faz bem, sentia isso no peito, no corpo, movia-se num composto gasoso de alegria, entusiasmo e ingenuidade, gostava daquele lugar na verdade, ali ninguém era dono, mas também ninguém pagava aluguel, ele era um dos poucos a morar ali sem ter sido de algum modo funcionário ou dependente de funcionário daquele parque industrial, dizem que o dono, um italiano muito rico voltou para a Itália e tudo largou, dizem que nos últimos tempos tornou-se um homem triste, comentam outros que ele faliu e voltou para os seus negócios na Itália onde ainda é bem rico, ninguém sabe ao certo, mas também ninguém sabe de onde surgiu aquele boato de que um novo gerente chegaria, mas todos se alegraram, tudo está na justiça, são muitos processos, contendas, dívidas e mais dívidas, tudo parado a muitos anos, parecia-lhe improvável que de repente viesse assim um tal para administrar aquilo. Dias, Dias, gritavam os meninos interrompendo seus pensamentos, Dias, Dias, chamavam já bem próximos e ofegantes. O que foi agora?, perguntou Dias, o que há com a arraia? Ouvimos, respondeu um deles com aquele ar de amigo que tudo conta só pela amizade, o Justino Barroso conversando com uns homens lá na porta do bar, o bar está fechado, mas eles estão lá na porta comendo tira-gosto e bebendo. E o que tenho eu a ver com Isto? perguntou Dias. É que eles estavam falando de você, é, o Justino Barroso. O que falavam? Bem, não sei, respondeu o que tinha uns doze anos, o Barroso falou o seu nome, ele estava xingando... mas Dias?, continuou o menino, o que quer dizer esquadrão da morte? Esquadrão da morte?, indagou Dias franzindo os olhos sem saber do que se tratava. É, esquadrão, disse o menino, esquadrão da morte.

02 fevereiro 2011

Inesperado sol

48

Aqueles quatro meninos corriam pelos espaços abertos limpos dos muitos entulhos de ferro e do mato abundante agora recolhido em montes que secavam ao sol, muitas espécies diferentes que temperavam o ar de um agridoce cheiro verde e morno de vida nova, corriam tentanto levantar uma arraia, passaram pelo Dias, a chuva pouca do dia anterior no solo aquecido trazia a suavidade da terra para os seus passos corridos em sandálias de dedo que pareciam coladas à sola dos pés, corriam os quatro com uma única pipa em papel amarelo a parecer sorrir ao domingo de sol mas que rodopiava, rodopiava e não subia além de uns poucos metros acima do chão, Dias se enterneceu de suas tentativas frustradas, se bem que se divertiam do mesmo jeito pelo que ficava claro em suas risadas e nos atritos descontraídos de opinião que manifestavam para que a empresa de fazer subir a danada da arráia obtivesse sucesso, Dias não resistiu, se envolveu, acertou as varetas do brinquedo de levezas e ventos e deu uma atenção especial à rabiola, encontrou o equilíbrio das partes, rapidamente depois no céu fundo de azul brilhante e de nuvens macias de brancura o amarelo da arraia foi diminuindo, diminuindo, diminuindo, subindo como passarinho feliz que voa em seu propósito e esforço de comer, viver, procriar, a arraia foi subindo e bailando em seu voo, movimento leve e impensado de viver. Vocês viram o senhor gerente?, perguntou aos meninos como se a pergunta fosse só a expressão inocente de uma curiosidade, ele está lá no cais, responderam, e Dias se perguntou o que faria o gerente no velho cais, mas logo voltou a bem dizer para si mesmo que era certo o que ele fazia, de querer conhecer todos os cantos daquele lugar abandonado que agora esperava na ferrugem dos anos o seu olhar de cuidado e a sua palavra de admnistração, e além do mais, o cais ainda tinha um quê de vida, um movimento de pescadores que por ali se arranjavam nos reparos de suas embarcações e no manejo do pouco peixe que conseguiam em sua lutas sem feriados, dias santos e domingos.

01 fevereiro 2011

Inesperado sol

47


Folha velha de papel arrastada por um espaço largo e ancorada numa parede azul desbotada, seus olhos caíram sobre o gerente no bar, foi assim, não esperava senão ver um homem a mais, a novidade na boca de todos ali na vila, o novo gerente, o que esperava era um senhor com ar de importância, esta que não se tem, mas que se forja em esteriotipados trejeitos de se achar, jeitos que de costume via nos que ocupam cargos intermediários, pessoas que estão no degrau do meio, ou mais abaixo do meio, e que se vestem de capas e olhares e posturas de quem está no topo da escada, se surpreendeu, o gerente era um homem bonito, com aquele ar de jovialidade e madurez que se alcança entre os trinta e os quarenta, totalmente destituído de uma forjada autoridade. Não gostou nada do que sentiu, borbulhar de águas encachoeiradas que perdem a transparência, ficam leitosas, pesos de grandes nuvens na barra do céu anunciando temporal. Seus olhos caíram sobre ele com carinho e uma febre de energia se anunciou por debaixo da pele, sinais de outra história, ou de outros capítulos de uma mesma e enceguerante história a se desdobrar, o Justino Barroso, o sargento no exército, agora este. Os passos se aceleraram, já avistava o prédio dos escritórios, uma janela no segundo pavimento aberta. Queria recuar, voltar atrás, não conseguiria. Dane-se, disse pra si mesmo já vivendo a alegria da decisão.

30 janeiro 2011

Inesperado sol

46

O que faria, foi pensando, se o gerente ao modo de ver de uma supervisora de escola com muitos olhos em cada corredor a saber da menor fumacinha de cigarro que se pensou diluída já nas altas atmosferas, se lhe percebesse o que em curvas suaves e leves de nuvens em paisagens de verão se articulava em seus mundos de sonhos e desejos? O que fazer se ele percebesse?, certo é que até seria bom se ele enxergasse, não perceberia, era homem ao que deixava transparecer muito preocupado e dado a vastos pensamentos a deixá-lo assim por detrás de uma cortina diáfana que o protegia e o cegava ao mesmo tempo da lucidez de ver exato as coisas, as que se dão no viés dos dias.  Mas se o gerente percebesse esse inesperado sentimento que agora se expandia pelos vários cômodos da sua vida recém saída da adolescência, inesperado sentimento que se alargava pelo corpo e pelas fontes de onde surgem os pensamentos, as alegrias, os sonhos, talvez lhe oferecesse um sorriso compreensivo, ou, mais provável, lhe mandasse pra puta que o pariu sem meias nem peias. Mataram aquele negro nos Estados Unidos estes dias, lembrou; por quais cargas d'água lembrou exatamente agora esta morte triste e distante da qual sentia ainda um estranho luto e que fora notícia na tevê?, articulou-se em fundos de si mesmo procurando outra resposta, talvez porque lera na biblioteca numa revista uma reportagem sobre a sua trajetória, seus anseios, a morte, ficara impressionado com a força das palavras daquele negro, I still have a dream, um mesmo sonho talvez fosse o ponto, o nó dos encontros, do que se enlaça no coração das pessoas, a despeito do tamanho e da nobreza daquele e da fragilidade e incipiência do seu, ganhar a vida, ser respeitado, amar sem se esconder, I have a dream, sentiu um aperto na garganta, largou a caneca de esmalte onde tomara o café sobre a pia. Sabia que não podia se apiedar de si mesmo, o que apenas lhe acrescentaria ao precário patrimônio lamentações e lamentações, nunca o fizera, nem no tempo de criança quando com a cabeça recostada ao colo da avó  recebia dela seu cafuné e amolecia-se todo, como se naquelas mãos cálidas houvesse um segundo propósito, desaguar-lhe as enxurradas de lamentos para que então pudessem ser com mais eficácia portadoras da unção de carinhos terapêuticos. Quando percebia o efeito daquela indução amolecendo cimentos e barras de ferro, levantava-se de imediato e se ia.

28 janeiro 2011

Inesperado sol

45

Foi então para os escritórios gerais onde estaria com certeza o gerente a despeito de ser domingo, não sabia exatamente o que dizer quando lá chegasse, mas se arranjaria, como se arranjou com a ave depenando-a toda, fez depois uma pequena fogueira com folhas de jornal e queimou-a, como já tinha presenciado tal ato da avó, os últimos pelinhos, segurando-a pelos pés pela cabeça pelas asas, o corpo pendendo como um coração magoado, e assim adiante, tudo muito rápido, com cuidados sem se queimar, dava na verdade um banho de fogo na ave sem chamuscar a pele apenas os pelos, nem expo-la à fumaça excessiva, um cheiro de pelos tostados subiu, não gostou, correu com ela até a pia, lavou-a com bastante água corrente esfregando com sabão todas as suas partes como se fosse um bebê, não sabia se isso seria necessário, mas o fez, a seguir veio os cortes, desajeitado, a faca afiada exigia cuidados, fez o melhor, a aula de inglês e bons conselhos, lição de sucesso ao estilo americano, do your best, sorriu com o canto da boca, os cortes se sucedendo, a faca engasturando-se com os ossos ao errar as juntas, vida de esbarros, aborrecimentos, má sorte, desprazer e debaixo da torneira sempre aberta, economia de água agora a avó que o perdoasse, retalhada em partes numa tigela parecia outra coisa, superfície rosea em vários tons encraterada, flocos amarelos de gordura em profusão nas carnes, derramou sal, faltava limão, empolvilhou ainda mais sal sobre a ave, a avó que a temperasse adequadamente depois, e preparou-se para ir até os escritórios gerais, lavou bem as mãos, cheirou-as, lavou-as de novo e ainda sentia um almiscar, um cheiro de carne, de visceras, esfregou sal e enxaguou-as afinal, preocupou-se nessa hora com o estivador, ele o haveria de cercar em algum canto mais cedo ou mais tarde, que se dane, disse procurando um café pra tomar, ali o bule sobre a chapa do fogão, viro-me bem, desvencilho-me dele mais uma vez.

27 janeiro 2011

Inesperado sol

44


Já sei, já sei o que se anda passando ai nessa sua cabecinha, quando você para e fica assim olhando as coisas sei da sua derrota, vence a imaginação, voa sabe-se lá pra que mundo, já serviu o exército mas continua um menino, dizia a avó, e completava, venha cá meu filho, venha cá, a vovó quer um beijo, vamos conversar, sim, é isso?, já sei. Não entendia por que ela o chamava de filho e não permitia ser chamada de mãe. Os dias passam e o meu Dia não vem, demora que só, brincava como o nome dele tirando a letra esse. Ao estalinho do beijo no rosto a avó se virou na direção da frente da casa, se antecipava, estavam nos fundos e logo se ouviu o barulho de uma carroça, uma charrete, movido pelo zoar das patas de cavalos e guincho de rodas em eixos envelhecidos, sem que a avó o pedisse lá se foi Dias como dono da casa receber quem chegava, não chegava, apenas vinha pedir ajuda, havia pressa, alguém morria, voltou rápido e topou com a avó no corredor da casa andando ligeiro apesar dos passos curtos, indo sem que lho contassem do que se tratava para a porta da frente e dizendo que Dias se arranjasse com a galinha, o fim do trabalho, voltaria logo que pudesse. Pendia-se a ave na trave, desvencilhava-se e caía das amarras frágeis da avó, imaginava, se assim caindo resgatar a vida fosse possível, seria bom cair, como quando se nasce em parto dentro d'água, era, mas não, não era, nunca mais viveria, ali pendida, cumpria um destino, pêndulo de um estranho equilíbrio, a morte. E se há algo assim junto da carne, outra coisa, o mistério, a vida, isso não cai, isso sobe, diz-se que, mas a cena da galinha caindo pesada como chumbo se lhe prendia na mente, seria grotesco, mas se valorizasse o bico entreaberto e colocasse ao fundo um trecho de Mahler, mas que coisa, de onde vinha essa idéia, Mahler?, aprendera a ouvir Mahler com o sargento no exército, o cara gostava, mas a expressão o cara gostava parece ter sentido duplo, deixa pra lá, a tomada seria estranha e bela, banal e especial ao mesmo tempo, estes bichos domésticos ganham jeitos humanos, traduzem-nos, a inquietude da alma humana nas galinhas, o olhar de engano dos cachorros mais humano que o olhar de santo na igreja, santo mal feito, de gesso, que ângulo escolheria?, a parte penada ou a parte depenada; cães velhos por perto desenhavam olhares de palavras saliventas e sem gramática.

26 janeiro 2011

Inesperado sol

43

Acordou mais cedo do que imaginava, um pouco depois das dez, a manhã que escorria pela fresta na estrutura metálica daquela espécie de sótão era, ou mostrava-se, como uma manhã de pensamentos bons, preguiças e sossego; iria para a casa da avó, não se negava uma certa verdade, diga-se, queria saber da avó impressões, previsões, noticias sobre o tal gerente, mas conciliaria os dois interesses, frutas filipes que não se desperdiçam. Quando chegou uma galinha dependurada numa trave era depenada, trave que, agora se dava conta, nunca tivera outra serventia, muitas galinhas ali perderam sua plumagem, a cabeça estranha reta para baixo puxada pela gravidade, o bico entreaberto, pesava, pesava mais do que se possa imaginar que pese uma insignificante cabeça de galinha, toda a leveza teria se esvaído dos ossos, das asas por aquele bico entreaberto, sentiu-se diferente, não se importava com estas cenas, mas em ocasião nenhuma se dera conta do peso da morte, se dava agora, a morte pesa, até mesmo num pequeno e leve animal plumado, é o que lhe vinha, o que subia para os mapas dos pensamentos, para as superfícies de sua mente, aquela idéia, espinha que não se quer ter no rosto mas que ao se olhar no espelho uma segunda vez, lá se revela e se escancara a indesejada, monte eriçado de vermelhidão e cume amarelento, vinha-lhe ao pensamento enquanto chegava sem que a avó se desse pela sua presença querida, sempre querida, sentia-se sempre seguro do amor da avó, se fazia ela de distraída, seus ouvidos eram olhos, seus olhos ouvidos, mas quieta, mansa, retirava as penas da ave que previamente tinha tomado um mergulho em água escaldante, ainda mais próximo olhou, Dias olhou entre admirado e espantado, duvidava da própria sinceridade neste momento, a cena do filme voltava, imaginava-se no filme espantado com a galinha dependurada na pequena trave, assim , atuando, ator e diretor, uma câmera aqui seguindo logo acima do seu ombro, na perspectiva dos seus olhos, a lente mostrava como era delicada a avó na extração de cada suave pena daquela pele sem sangue, arrepiada como se sentisse um frio horrível. Dizia o diretor, veja, veja como são delicadas suas mãos, siga filmando, é uma menina, uma menina que brinca, filme isso, uma menina romântica que colheu ali nos campos ajardinados da velha mansão uma flor, e brinca de bem-me-quer mal-me-quer.

25 janeiro 2011

Inesperado sol

42

Nem mesmo tinha terminado de estender um cobertor que lhe serviria de cama, depois de escolher o lugar certo, um barulho se fez ouvir lá debaixo, passos, de quem pisa leve sem conseguir, desnecessário disfarce, Dias olhou pela fresta do lugar no alto do prédio ao lado de onde morava e viu o estivador bater à porta, sabia que ele haveria de vir e se preveniu. Era certo, ali em cima ele não o encontraria, a escada que usara, recolhera, deitou-se, pensou nos passarinhos, tinha gosto por aqueles cantinhos escondidos, aquele usara muitas vezes para ler, ali ainda estava um livro, um pequeno livro, juventude, de Joseph Conrad, ali o mundo era só seu, comodamente deitado, podia observar as ações daquele homem, dormiria longas horas depois, até por volta do meio-dia. Como poderia ter tido por um tempo tão longo, da adolescência ao ano no exército, olhos para localizar um rumo, o cruzeiro do sul da sua vida naquele homem; recebia dele carinhos e agrados, diferentes dos da avó Luzia e viu crescer sentimentos por ele, nunca fora capaz de dizer te amo, mas muitas vezes perguntou-se se não seria a hora, se o que sentia não seria amor, não, não disse, nunca disse, chegou a tentar em certos momentos, algo o impedia. Agora se dava com os entendimentos, agora percebia, não havia flores naqueles ramos crescidos em canteiros sem sol. Presente sempre o mar, por todos o lados, os navios, o porto, o mar, o cais, o estaleiro faziam-no acreditar mais nas promessas do estivador do que nos conselhos da avó Luzia. O estivador prometia que se mudariam para Nova Iorque, que tudo estava sendo providenciado com uns gringos conhecidos. Mas como a demora se alongava ano após ano uma pergunta tornou-se refrão nos seus encontros furtivos, vamos mesmo para Nova Iorque?, quando vamos para Nova Iorque?, lembra, olhando o outro lá embaixo forçando a porta enraivecido, vamos mesmo para Nova Iorque?, fazia questão de dizer o nome Nova Iorque, poderia perguntar vamos mesmo?, vamos mesmo pra os Estados Unidos? Não, era preciso acrescentar Nova Iorque, quis até aprender inglês, esforçou-se na escola, aprendeu algumas boas frases, e a resposta vinha com tantos detalhes, Justino era tão detalhista na exposição dos planos, falava com sentimentos, era exímio nas explicações, que a não realização daquilo seria impossivel, acreditava. Agora tinha que elaborar para si mesmo outras perguntas. O novo gerente, o novo gerente... adormeceu.

24 janeiro 2011

Inesperado sol

41

Fugiu-se dali o mais rápido possível depois de toda a trabalheira, não deixou contudo de ajudar também naqueles serviços finais quando todos se vão embora, inclusive o tal Justino Barroso, melhor mesmo que já se tivesse ido, quando todos se vão e é preciso ficar, recolher garrafas, juntar engradados, arrumar as mesas e cadeiras, passar uma vasoura no chão, enquanto a amiga dona do bar fechava suas contas, recolhia o dinheiro que a muito não via em um único dia. Havia muitas despesas a pagar, mas, decerto sobraria um bom dinheirinho; Dias, amanhã acerto com você, gritou de lá, não tem problema, respondeu, fechando as janelas, janelas antigas, tão bonitas, altas como uma porta, de duas bandas, uns vidros quebrados, madeira e tinta disputando os olhos dos dias e dias e dias, vamos descansar que já é hora. Durante a noite toda Dias trabalhou dançando e cantando como a obter na exaustão de um ritual os benefícios que se deseja. Agora não, agora trabalhava em silêncio, o silêncio caía ali sobre os dois naquele imenso e um dia bonito salão como água morna em banho sem pressa. Cada um sentado em pontos distantes, um olhando para o outro como a dizer tarefa cumprida, depois riram, seguiram um para o outro e se abraçaram em sigilos e cumplicidades de dores não partilhadas. Vamos, vamos descansar, disse Dias. A mulher ali mesmo morava no andar superior. Dias seguiu seu rumo; ouvia o som leve e rápido dos próprios passos, um galo aqui outro acolá, cantavam tristes e insistentes, alguém, alguns, gritando por ali estes gritos de fim de festa quando se vai embora tirando a camisa, o alcool hiperdimensionando as alegrias, pobres alegrias, nada além do que sempre corria por ali, as engrenagens funcionando, funcionando.

Seguiu passando por uns pequenos armazens fechados de portas grandes que vinham logo depois do bar, alguem gritou seu nome de longe no diminutivo, rindo, Diazinho, vai pra casa, hem! e outras babaquices do tipo, umas dez casas algumas habitadas e outras sem condições de abrigar alguém se sucediam numa linha reta, na frente um espaço grande como um campo de futebol, agora limpo dos entulhos retirados a mando do novo gerente, ao fundo, mas não mais na mesma linha, um pouco mais para a frente quatro armazens maiores. Tinha o dia já aquela cor macia de fim de madrugada, flor que se contempla longe da mão direta e pesada do sol, o ar carregava sem esforço um cheiro doce, quase imperceptível, de erva-de-santa-maria, que por ali tinham muitos pés. Entrou por entre o armazém dois e o três e seguiu depois deles por uma espécie de alameda em que as laterais eram carros cobertos de ferrugem, não lhes restara de toda a beleza e potência nos motores outro futuro senão aquele, naquela cor, abatido marrom; todavia, ao modo de olhares em retratos, olhares que clamam melancolicamente por vida em túmulos de datas tão distantes, mesmo que do ano anterior, datas em túmulos sempre são distantes, restavam alguns pontos e manchas e pedaços coloridos naqueles carros, num, noutro, num, noutro, marcas informes de alegrias findadas. Um navio apitou, doeu-lhe; todas as engrenagens seguiam intactas, de novo apitou, ainda mais dolorido, e de novo.
Inesperado sol

40

No seguir dos dias, já na puberdade, quando seus desejos anunciaram uma nova luta, uma a mais dentre tantas, Dias abandonou as rezas. Pedira umas vezes, não muitas mas bastante, que a santa do dia vinte e cinco quebrasse a roda das engrenagens, mas a vida se ia girando nos mesmos eixos sem sinal de desistir, girando, girando, girando. Desacreditou que a santa tivesse esse poder, quebrar as engrenagens dos destinos, não sabia o que fazer com o seu, com as proibições que lhe eram impostas sem os devidos entendimentos com as forças que lhe moviam o olhar, enrijeciam o corpo, angariavam-lhe o sangue e o amor. Há engrenagens que não se quebram, se azeitam, há engrenagens que enferrujam, mas não se quebram, há coisas que se esquecem, dores que se incluem nos pertences mais íntimos. Pensava nisso enquanto se aproximava da entrada do bar, olhou para o céu, tinha que encarar a vida, mais uma vez, e assim tinha que ser, não se entristecia. Dias assumiu seu lugar no balcão sem olhar para o estivador ao lado, queria distância. Justino demonstrava impaciência. O estivador procurou, procurou, discreto, esperto, até que foi capaz de chegar aos ouvidos de Dias, naturalmente, como se falasse coisas do trabalho, para impor seus domínios. Percebi seu interesse pelo tal gerentinho, lhe conheço rapaz, você presta atenção, você presta atenção. Aquele você presta atenção repetido que no passado funcionava como um controle, uma corda, uma rédea, um prenúncio de violência, ali dissipou-se no meio do barulho e da música, fez de conta que não ouviu.