Inesperado sol
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Ia caminhando não tão decidido, um vacilo se imiscuia em seus passos, mas ia, fazer a volta e retornar exigiria muito, não poderia ceder, o sol cantava alegre ao jeito de manhãs em que se vai para a praia com amigos, melhor mesmo era seguir, há um bom tempo que não ia ao velho cais, gostava de pescar por ali quando criança, mas o trabalho naquela lanchonete na cidade lhe tirava a vontade de pescar ou de fazer qualquer outra coisa no domingo senão descançar, ir à casa da avó Luzia, sentar para fumar por alí sobre uma carcaça qualquer de carro abandonado naquele fim de mundo enferrujado e ver o tempo passar, talvez no esforço conseguisse, sempre conseguia, estudar um pouco para as aulas que frequentava à noite no colégio estadual. Andar faz bem, dizia-se esta frase boba olhando o velho cais ao fundo, mas era bom mesmo andar naquela manhã, o mar sempre enfeita qualquer paisagem, mesmo quando a tristeza do abandono venha a tingir de marrons avermelhados e cinsas o brilho dos olhos, andar faz bem, sentia isso no peito, no corpo, movia-se num composto gasoso de alegria, entusiasmo e ingenuidade, gostava daquele lugar na verdade, ali ninguém era dono, mas também ninguém pagava aluguel, ele era um dos poucos a morar ali sem ter sido de algum modo funcionário ou dependente de funcionário daquele parque industrial, dizem que o dono, um italiano muito rico voltou para a Itália e tudo largou, dizem que nos últimos tempos tornou-se um homem triste, comentam outros que ele faliu e voltou para os seus negócios na Itália onde ainda é bem rico, ninguém sabe ao certo, mas também ninguém sabe de onde surgiu aquele boato de que um novo gerente chegaria, mas todos se alegraram, tudo está na justiça, são muitos processos, contendas, dívidas e mais dívidas, tudo parado a muitos anos, parecia-lhe improvável que de repente viesse assim um tal para administrar aquilo. Dias, Dias, gritavam os meninos interrompendo seus pensamentos, Dias, Dias, chamavam já bem próximos e ofegantes. O que foi agora?, perguntou Dias, o que há com a arraia? Ouvimos, respondeu um deles com aquele ar de amigo que tudo conta só pela amizade, o Justino Barroso conversando com uns homens lá na porta do bar, o bar está fechado, mas eles estão lá na porta comendo tira-gosto e bebendo. E o que tenho eu a ver com Isto? perguntou Dias. É que eles estavam falando de você, é, o Justino Barroso. O que falavam? Bem, não sei, respondeu o que tinha uns doze anos, o Barroso falou o seu nome, ele estava xingando... mas Dias?, continuou o menino, o que quer dizer esquadrão da morte? Esquadrão da morte?, indagou Dias franzindo os olhos sem saber do que se tratava. É, esquadrão, disse o menino, esquadrão da morte.