Inesperado sol
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Nem mesmo tinha terminado de estender um cobertor que lhe serviria de cama, depois de escolher o lugar certo, um barulho se fez ouvir lá debaixo, passos, de quem pisa leve sem conseguir, desnecessário disfarce, Dias olhou pela fresta do lugar no alto do prédio ao lado de onde morava e viu o estivador bater à porta, sabia que ele haveria de vir e se preveniu. Era certo, ali em cima ele não o encontraria, a escada que usara, recolhera, deitou-se, pensou nos passarinhos, tinha gosto por aqueles cantinhos escondidos, aquele usara muitas vezes para ler, ali ainda estava um livro, um pequeno livro, juventude, de Joseph Conrad, ali o mundo era só seu, comodamente deitado, podia observar as ações daquele homem, dormiria longas horas depois, até por volta do meio-dia. Como poderia ter tido por um tempo tão longo, da adolescência ao ano no exército, olhos para localizar um rumo, o cruzeiro do sul da sua vida naquele homem; recebia dele carinhos e agrados, diferentes dos da avó Luzia e viu crescer sentimentos por ele, nunca fora capaz de dizer te amo, mas muitas vezes perguntou-se se não seria a hora, se o que sentia não seria amor, não, não disse, nunca disse, chegou a tentar em certos momentos, algo o impedia. Agora se dava com os entendimentos, agora percebia, não havia flores naqueles ramos crescidos em canteiros sem sol. Presente sempre o mar, por todos o lados, os navios, o porto, o mar, o cais, o estaleiro faziam-no acreditar mais nas promessas do estivador do que nos conselhos da avó Luzia. O estivador prometia que se mudariam para Nova Iorque, que tudo estava sendo providenciado com uns gringos conhecidos. Mas como a demora se alongava ano após ano uma pergunta tornou-se refrão nos seus encontros furtivos, vamos mesmo para Nova Iorque?, quando vamos para Nova Iorque?, lembra, olhando o outro lá embaixo forçando a porta enraivecido, vamos mesmo para Nova Iorque?, fazia questão de dizer o nome Nova Iorque, poderia perguntar vamos mesmo?, vamos mesmo pra os Estados Unidos? Não, era preciso acrescentar Nova Iorque, quis até aprender inglês, esforçou-se na escola, aprendeu algumas boas frases, e a resposta vinha com tantos detalhes, Justino era tão detalhista na exposição dos planos, falava com sentimentos, era exímio nas explicações, que a não realização daquilo seria impossivel, acreditava. Agora tinha que elaborar para si mesmo outras perguntas. O novo gerente, o novo gerente... adormeceu.