25 janeiro 2011

Inesperado sol

42

Nem mesmo tinha terminado de estender um cobertor que lhe serviria de cama, depois de escolher o lugar certo, um barulho se fez ouvir lá debaixo, passos, de quem pisa leve sem conseguir, desnecessário disfarce, Dias olhou pela fresta do lugar no alto do prédio ao lado de onde morava e viu o estivador bater à porta, sabia que ele haveria de vir e se preveniu. Era certo, ali em cima ele não o encontraria, a escada que usara, recolhera, deitou-se, pensou nos passarinhos, tinha gosto por aqueles cantinhos escondidos, aquele usara muitas vezes para ler, ali ainda estava um livro, um pequeno livro, juventude, de Joseph Conrad, ali o mundo era só seu, comodamente deitado, podia observar as ações daquele homem, dormiria longas horas depois, até por volta do meio-dia. Como poderia ter tido por um tempo tão longo, da adolescência ao ano no exército, olhos para localizar um rumo, o cruzeiro do sul da sua vida naquele homem; recebia dele carinhos e agrados, diferentes dos da avó Luzia e viu crescer sentimentos por ele, nunca fora capaz de dizer te amo, mas muitas vezes perguntou-se se não seria a hora, se o que sentia não seria amor, não, não disse, nunca disse, chegou a tentar em certos momentos, algo o impedia. Agora se dava com os entendimentos, agora percebia, não havia flores naqueles ramos crescidos em canteiros sem sol. Presente sempre o mar, por todos o lados, os navios, o porto, o mar, o cais, o estaleiro faziam-no acreditar mais nas promessas do estivador do que nos conselhos da avó Luzia. O estivador prometia que se mudariam para Nova Iorque, que tudo estava sendo providenciado com uns gringos conhecidos. Mas como a demora se alongava ano após ano uma pergunta tornou-se refrão nos seus encontros furtivos, vamos mesmo para Nova Iorque?, quando vamos para Nova Iorque?, lembra, olhando o outro lá embaixo forçando a porta enraivecido, vamos mesmo para Nova Iorque?, fazia questão de dizer o nome Nova Iorque, poderia perguntar vamos mesmo?, vamos mesmo pra os Estados Unidos? Não, era preciso acrescentar Nova Iorque, quis até aprender inglês, esforçou-se na escola, aprendeu algumas boas frases, e a resposta vinha com tantos detalhes, Justino era tão detalhista na exposição dos planos, falava com sentimentos, era exímio nas explicações, que a não realização daquilo seria impossivel, acreditava. Agora tinha que elaborar para si mesmo outras perguntas. O novo gerente, o novo gerente... adormeceu.

24 janeiro 2011

Inesperado sol

41

Fugiu-se dali o mais rápido possível depois de toda a trabalheira, não deixou contudo de ajudar também naqueles serviços finais quando todos se vão embora, inclusive o tal Justino Barroso, melhor mesmo que já se tivesse ido, quando todos se vão e é preciso ficar, recolher garrafas, juntar engradados, arrumar as mesas e cadeiras, passar uma vasoura no chão, enquanto a amiga dona do bar fechava suas contas, recolhia o dinheiro que a muito não via em um único dia. Havia muitas despesas a pagar, mas, decerto sobraria um bom dinheirinho; Dias, amanhã acerto com você, gritou de lá, não tem problema, respondeu, fechando as janelas, janelas antigas, tão bonitas, altas como uma porta, de duas bandas, uns vidros quebrados, madeira e tinta disputando os olhos dos dias e dias e dias, vamos descansar que já é hora. Durante a noite toda Dias trabalhou dançando e cantando como a obter na exaustão de um ritual os benefícios que se deseja. Agora não, agora trabalhava em silêncio, o silêncio caía ali sobre os dois naquele imenso e um dia bonito salão como água morna em banho sem pressa. Cada um sentado em pontos distantes, um olhando para o outro como a dizer tarefa cumprida, depois riram, seguiram um para o outro e se abraçaram em sigilos e cumplicidades de dores não partilhadas. Vamos, vamos descansar, disse Dias. A mulher ali mesmo morava no andar superior. Dias seguiu seu rumo; ouvia o som leve e rápido dos próprios passos, um galo aqui outro acolá, cantavam tristes e insistentes, alguém, alguns, gritando por ali estes gritos de fim de festa quando se vai embora tirando a camisa, o alcool hiperdimensionando as alegrias, pobres alegrias, nada além do que sempre corria por ali, as engrenagens funcionando, funcionando.

Seguiu passando por uns pequenos armazens fechados de portas grandes que vinham logo depois do bar, alguem gritou seu nome de longe no diminutivo, rindo, Diazinho, vai pra casa, hem! e outras babaquices do tipo, umas dez casas algumas habitadas e outras sem condições de abrigar alguém se sucediam numa linha reta, na frente um espaço grande como um campo de futebol, agora limpo dos entulhos retirados a mando do novo gerente, ao fundo, mas não mais na mesma linha, um pouco mais para a frente quatro armazens maiores. Tinha o dia já aquela cor macia de fim de madrugada, flor que se contempla longe da mão direta e pesada do sol, o ar carregava sem esforço um cheiro doce, quase imperceptível, de erva-de-santa-maria, que por ali tinham muitos pés. Entrou por entre o armazém dois e o três e seguiu depois deles por uma espécie de alameda em que as laterais eram carros cobertos de ferrugem, não lhes restara de toda a beleza e potência nos motores outro futuro senão aquele, naquela cor, abatido marrom; todavia, ao modo de olhares em retratos, olhares que clamam melancolicamente por vida em túmulos de datas tão distantes, mesmo que do ano anterior, datas em túmulos sempre são distantes, restavam alguns pontos e manchas e pedaços coloridos naqueles carros, num, noutro, num, noutro, marcas informes de alegrias findadas. Um navio apitou, doeu-lhe; todas as engrenagens seguiam intactas, de novo apitou, ainda mais dolorido, e de novo.
Inesperado sol

40

No seguir dos dias, já na puberdade, quando seus desejos anunciaram uma nova luta, uma a mais dentre tantas, Dias abandonou as rezas. Pedira umas vezes, não muitas mas bastante, que a santa do dia vinte e cinco quebrasse a roda das engrenagens, mas a vida se ia girando nos mesmos eixos sem sinal de desistir, girando, girando, girando. Desacreditou que a santa tivesse esse poder, quebrar as engrenagens dos destinos, não sabia o que fazer com o seu, com as proibições que lhe eram impostas sem os devidos entendimentos com as forças que lhe moviam o olhar, enrijeciam o corpo, angariavam-lhe o sangue e o amor. Há engrenagens que não se quebram, se azeitam, há engrenagens que enferrujam, mas não se quebram, há coisas que se esquecem, dores que se incluem nos pertences mais íntimos. Pensava nisso enquanto se aproximava da entrada do bar, olhou para o céu, tinha que encarar a vida, mais uma vez, e assim tinha que ser, não se entristecia. Dias assumiu seu lugar no balcão sem olhar para o estivador ao lado, queria distância. Justino demonstrava impaciência. O estivador procurou, procurou, discreto, esperto, até que foi capaz de chegar aos ouvidos de Dias, naturalmente, como se falasse coisas do trabalho, para impor seus domínios. Percebi seu interesse pelo tal gerentinho, lhe conheço rapaz, você presta atenção, você presta atenção. Aquele você presta atenção repetido que no passado funcionava como um controle, uma corda, uma rédea, um prenúncio de violência, ali dissipou-se no meio do barulho e da música, fez de conta que não ouviu.

23 janeiro 2011

Inesperado sol

39

Dias sempre teve o seu próprio canto para morar, o que poderia chamar de casa, desde criança, quando chegara à velha siderúrgica; de tempos em tempos mudava, lugares era o que não faltava naqueles muitos galpões, também nao carecia de imaginação e criatividade para montar sua casa, aqui, acolá. Em certas noites, todavia, sem saber por quê pois se entendia como corajoso, ou quando alguns sonhos rompiam seu sono com sustos e sobressaltos corria pelo escuro afora por entre os vultos formados pelos entulhos e ferragens para a casa da avó Luzia, e lá, naquela cama macia e cheirosa sempre pronta, já tranquilo e refeito dos seus medos, se determinava a não dormir para aproveitar a oportunidade e descobrir os segredos da boa velha. Desdobrava-se em tentativas de vencer o cansaço, o sono, e montar vigilância, permanecer de ouvidos bem atentos para os ruídos diferentes, seriam diferentes, reveladores e, então, de espreita encontraria o lugar certo para tudo observar; nos idos da madrugada, a avó se transformaria, ele tinha certeza, queria ver, num beija-flor, numa andorinha, quem sabe uma rolinha, num pássaro pequeno qualquer, pois supunha, era por estes rumos, como um passarinho esperto, que ela ia aos seus três santos lá no alto do céu, logo bem cedinho, antes do sol abrir todas as portas da luz, e saber deles coisas do futuro. O costume se mantinha, tantas coisas perdera, mas isto permanecia, a ligação entre futuro e alto do céu, não conseguia vencer aquela mania, ao contrario das pessoas que abaixam a cabeça nos momentos de pensar no futuro, ele olhava para o alto. Em algumas outras noites, quase derrubado pelo sono mas ainda não, a imaginação travessa levava-o fácil para mostrar a avó se transformando numa coruja horrível, ou num morcego pesado e fedorento, e então encobria a cabeça com o lençol e rezava, rezava ou tentava, misturando as palavras daquelas rezas que com ela mesma havia aprendido, especialmente aquela à Santa Catarina.

22 janeiro 2011

Inesperado sol

38

Naquela noite não, naquela noite as coisas aconteciam, o baile, o novo gerente, o que ia se dando por dentro, na cabeça de cada um, daqueles que acreditavam que a velha siderúrgica pudesse recuperar o vigor do passado; Dias não, Dias não conhecera aquele lugar senão abandonado, como se assim sempre tivesse existido, cenário de um filme que não chegou a ser produzido. Suas lembranças todas estavam fundadas naquele lugar, nem sabia de onde viera, crescera ali, com a ajuda de um, de outro, especialmente da avó, aquela que aprendera a chamar de avó, avó Luzia, queria na verdade chamá-la de mãe, mas ela nunca permitiu. O lugar e a avó eram sócios nos anos, no tempo escorrido, cubo de gelo derretido ao sol e absorvido pelo chão, impossível volta.

A avó guardava algo, não sabia o quê, algo que ela entregaria a um homem bom, como ela dizia, um homem bom virá, e dizia isso sempre no dia vinte de janeiro, vinte e cinco de novembro e treze de dezembro, dias dos seus três santos. O treze de dezembro ele sabia, era a festa de Santa Luzia, aniversário da avó. Havia comida boa nestes dias e aquele anúncio estranho. Mas no dia de Santa Luzia, além da comida boa ela lhe reservava uma sacola de doces, balas, bombons. A avó, sim, a avó. Precisava visitá-la. Ela sabia dizer coisas, não lia cartas, mãos, não fazia despachos, não fazia grandes rezas, mas sabia de coisas do futuro, fragmentos, pedaços, mas sabia.

21 janeiro 2011

Inesperado sol

37

O estivador apareceu na porta do bar e olhou para um lado e para o outro, procurava-o com certeza, voltou a entrar. Dias apertou o que sobrara do cigarro sobre o cimento velho esbranquiçado da calçada com uma força excessiva como se esmagasse debaixo da brasa que se ia fazendo em cinzas um bicho peçonhento, uma lacraia, um verme qualquer. Levantou-se, agia como se estivesse numa cena de cinema, imaginava-se sempre num filme, cada insignificante momento ganhava importância, seus gestos ganhavam valor, às vezes cansava-se, umas poucas vezes esquecia aquilo, mas sempre retornava-lhe essa idéia, era preciso atuar bem, esfregou uma mão sobre a outra, ia à luta, respirou mais fundo o ar, ah o vento estava carregado de maresia, ainda mais forte do que de costume, gostava da maresia, lembranças de quando o abandono ainda não era contaminado pela consciência, quando o presente, duro, áspero, se contorcia em alegrias de viver livre, enganosas, traiçoeiras, mas alegrias. Bem sabia a um tempo que a alegria pode burlar a realidade, a ela se permite tomar de Deus este atributo, criar mundos. Dias levantou-se e voltou ao trabalho no balcão do bar, tinha se comprometido com a dona daquele malcheiroso estabelcimento que a ajudaria naquela noite. Já tinha trabalhado ali um tempinho, mas não fora capaz de suportar a quietude e as sombras daquele lugar, ali as cenas se desenrolavam muito vagarosamente.

16 janeiro 2011

Inesperado sol

36

A um passo, Dias ficou a um passo do que poderia fazer, pegar aquele molho de chaves, não sabia exatamente para quê, talvez para devolver no dia seguinte com uma desculpa qualquer, ou para tentar abrir quem sabe certas portas, já imaginava dinheiro, algo de valor por detrás de alguma fechadura naquele mundo abandonado e enferrujado de galpões e galpões e galpões, casas velhas, salas abarrotadas de papéis, escritórios empoeirados, mas teve um descompasso entre o que poderia fazer e o que acontecia naquele momento. O gerente, sem saber, tornou-se um outro caminho, uma outra possobilidade. Sonhos que recorrem, uma ilusão de amor, estas coisas difíceis, ainda mais para ele, ilusões que sempre voltam, desejos que sempre estão à porta pedindo realização. Ao invés de tomar aquele molho de chaves preferiu aproximar-se mais do gerente, decidiu isso ao conhecê-lo no baile, aquele rosto entre o preocupado e o pensativo, o modo com que olhava a todos mesmo quando levava o copo de cerveja à boca, seu jeito de levar a amiga na dança, o braço sobre seu corpo apoiando a mão firme na lateral do quadril, enlaçando-a, quase enlaçando suas nádegas, puxando-a para sí ali embaixo e afastando-a na altura do rosto, negando-lhe na dança a intimidade que não fosse aquela, dos quadris apertados um sobre o outro. Ganhar sua amizade, não seria fácil, ou seria, teria que agir.

A estratégia agora, nem de todo era uma estratégia, o que seus pensamentos definiam agora era que devia agir com umas boas doses de humildade e paciência, paciência não teria muita, na humildade talvez fosse capaz de conduzir suas atitudes mais facilmente, não por lhe ser esta uma característica própria, mas pelas humilhações, pão de cada dia. Sentiu perder a excitação, o corpo se afrouxava, a mente não. Desenrolou-se logo de tudo pedindo desculpas, O senhor deve mesmo estar cansado, e eu aqui incomodando o senhor com esta conversa, mas pode contar comigo, ajudo no que for possível. Bateu a porta da caminhonete, afastou-se dois passos para trás e esperou o gerente dar partida. Viu aquelas luzes vermelhas se indo, desejou ir-lhe atrás, mesmo que a pé, correria, isto é certo, se cedesse ao desejo, a casa não ficava longe, e chegaria logo depois, mas virou-se e voltou para o bar. Antes sentou-se num degrau de uma casa ao lado do bar e ficou pensativo, fumando. Sentiu um leve movimento na boca do estômago, algo que se aparentava a um soluço, tinha este sintoma quando queria falar e não falava, quando engolia as próprias palavras, amargas na volta para o fundo da garganta, grossas e ásperas, um soluço, precisava beber alguma coisa, levou novamente o cigarro aos lábios numa tragada mais forte puxando a brasa bem próxima dos lábios.

14 janeiro 2011

Inesperado sol

35

O que você quer? reagiu Augusto assustado. Saí para fumar, respondeu o rapaz admirando a caminhonete e dizendo gostar daqueles modelos antigos. Saiu para fumar disse Augusto num tom que era outro, bem diferente do que a frase dizia, saiu para fumar, repetiu irritado. O rapaz ignorou a leve ironia, e demonstrava interesse pelo carro, rodeando-o e olhando os detalhes. Faz tempo que o senhor tem este carro? O modo de segurar o cigarro, de dar as tragadas tinha um quê de ensaio, de quem fuma a pouco tempo. O senhor não está gostando da festa? vai para outro lugar? fez outra pergunta sem esperar a resposta da primeira. Não, simplesmente vou para casa, tenho muito trabalho, muitas coisas a ver, respondeu, preciso descansar. Olha, disse o rapaz, se o senhor precisar de um auxiliar de escritório tenho experiência, no quartel fiquei nos trabalhos administrativos ajudando o sargento. Sim, disse Augusto, obrigado, mas por ora não vou contratar ninguém, me são suficientes os homens para a limpeza do lugar, recolhendo o ferro-velho; neste momento ja se assentava ao volante, e o rapaz, pela porta do carona que tinha pedido licença para abrir, admirava o painel da velha chevrolet. Sou apaixonado por este tipo de carro, disse o rapaz enquanto dobrava-se sobre a poltrona para olhar melhor. Quando disse apaixonado separou demais as sílabas, e a palavra ficou com um tom afetado. Não se importou com isso, até parecia ter um certo prazer, numa postura completamente diferente daquela que adotava debaixo dos olhares vigilantes do estivador. Sobre o acento do carona estava o molho de chaves.

13 janeiro 2011

Inesperado sol

34

Ao voltar ao balcão um outro ajudante tinha se juntado aos demais, um rapaz dos seus vinte e poucos anos. A mulher se mantinha afastada de atendê-lo especificamente, como se cumprisse ordem, veio o rapaz, veio com toda a prontidão, estendendo a mão e se apresentando com uma efusão de simpatia da qual logo se recompôs como se percebesse uma falha em si mesmo, um exagero, sempre se recriminava, mas não conseguia vencer aqueles modos, discretamente olhou para um lado e para o outro e continuou no seu trabalho. Justino Barroso percebeu a cena com atenção, havia em suas maneiras, no olhar disfarçado, um ato em premeditação de fera. Augusto observou, sentia que a posição que ocupava no imaginário daquelas pessoas dava-lhe uma importância com a qual não sabia lidar em função da falta de habilidades, aquelas que se adquire no desempenho cotidiano da autoridade. Durante o tempo que esteve ali Augusto sentiu que o rapaz o seguia, quase o perseguia, com um olhar morno, de chá de camomila, mão leve de barbeiro sobre o cabelo, nao sabia explicar. Saiu para respirar, o ideal seria ter agora um cigarro, fumar, fumar sem pressa, como aprendera na casa de dona Irene; mas abandonara o fumo com a ajuda da esposa, mas na fuga voltara a fumar. Entrou no bar, comprou um maço e foi-se embora, a chuva tinha passado, a noite estava clara, a lua brilhava em grandes espaços entre as nuvens, o ar era limpo, noite boa para andar solitário por ali, fumando, mas era um lugar ainda desconhecido, melhor se prevenir com certos cuidados. Como ainda era cedo para deixar a festa pensou que ninguém imaginaria de que se ia pra casa. Quando já chegava perto da caminhonete logo percebeu que sua saída não fora assim tão despercebida, o rapaz veio ao seu encalço.

12 janeiro 2011

Inesperado sol

33

O senhor é um homem sonhador, e carajoso, disse o estivador, pode me chamar de Barroso, todos me conhecem assim, é claro que meu nome, como já me apresentei, é Justino, mas de fato prefiro o sobrenome Barroso, me acostumei, o senhor... deseja uma nova cerveja? perguntou na sequência da conversa deixando um espaço na fala para depois de senhor. Augusto, meu nome é Augusto, respondeu. Admirou-se da tranquilidade em dizer o próprio nome. O senhor Augusto é um homem corajoso, o senhor acredita mesmo que tudo isto pode voltar a funcionar? continuou perguntando referindo-se ao complexo industrial. Augusto sorriu, disse um talvez... talvez, e se foi retirando, pedindo as devidas licenças. Havia ali naquele homem algo que precisava entender melhor, depois voltaria e veria por onde o tal Barroso iria conduzir a conversa. Foi-se na direção de uma mulher com quem trocava olhares, conhecia muito bem as voltas e as sílabas daquelas miradas; a escola que frequentara, a casa de dona Irene, não lhe deixava falhar. Era linda a menina, não mais que vinte anos, mas exacerbada na sensualidade e no desejo de viver uma noite feliz. Com certeza o que isso dizia é que a vida que levava era uma vidinha dura e de muitos desprazeres cotidianos. Ele não se importou com isso, não se importava com isso com as mulheres de dona Irene que muito bem sabiam separar, ou se tinham treinado para separar, a pobreza de vida que viviam das coisas da cama. Dançaram e os passos da dança diluiram com a cerveja aqueles outros pensamentos, de correntes pesadas, que lhe amarravam a idéia o tempo todo: o que tinha feito, meu Deus, o que tinha feito? o que fazer agora? Quantos dias se passaram desde a morte de Rosimara, perguntou-se, não soube responder, não pensou mais nisso, o clima no bar instava-o outras coisas.