23 janeiro 2011

Inesperado sol

39

Dias sempre teve o seu próprio canto para morar, o que poderia chamar de casa, desde criança, quando chegara à velha siderúrgica; de tempos em tempos mudava, lugares era o que não faltava naqueles muitos galpões, também nao carecia de imaginação e criatividade para montar sua casa, aqui, acolá. Em certas noites, todavia, sem saber por quê pois se entendia como corajoso, ou quando alguns sonhos rompiam seu sono com sustos e sobressaltos corria pelo escuro afora por entre os vultos formados pelos entulhos e ferragens para a casa da avó Luzia, e lá, naquela cama macia e cheirosa sempre pronta, já tranquilo e refeito dos seus medos, se determinava a não dormir para aproveitar a oportunidade e descobrir os segredos da boa velha. Desdobrava-se em tentativas de vencer o cansaço, o sono, e montar vigilância, permanecer de ouvidos bem atentos para os ruídos diferentes, seriam diferentes, reveladores e, então, de espreita encontraria o lugar certo para tudo observar; nos idos da madrugada, a avó se transformaria, ele tinha certeza, queria ver, num beija-flor, numa andorinha, quem sabe uma rolinha, num pássaro pequeno qualquer, pois supunha, era por estes rumos, como um passarinho esperto, que ela ia aos seus três santos lá no alto do céu, logo bem cedinho, antes do sol abrir todas as portas da luz, e saber deles coisas do futuro. O costume se mantinha, tantas coisas perdera, mas isto permanecia, a ligação entre futuro e alto do céu, não conseguia vencer aquela mania, ao contrario das pessoas que abaixam a cabeça nos momentos de pensar no futuro, ele olhava para o alto. Em algumas outras noites, quase derrubado pelo sono mas ainda não, a imaginação travessa levava-o fácil para mostrar a avó se transformando numa coruja horrível, ou num morcego pesado e fedorento, e então encobria a cabeça com o lençol e rezava, rezava ou tentava, misturando as palavras daquelas rezas que com ela mesma havia aprendido, especialmente aquela à Santa Catarina.

22 janeiro 2011

Inesperado sol

38

Naquela noite não, naquela noite as coisas aconteciam, o baile, o novo gerente, o que ia se dando por dentro, na cabeça de cada um, daqueles que acreditavam que a velha siderúrgica pudesse recuperar o vigor do passado; Dias não, Dias não conhecera aquele lugar senão abandonado, como se assim sempre tivesse existido, cenário de um filme que não chegou a ser produzido. Suas lembranças todas estavam fundadas naquele lugar, nem sabia de onde viera, crescera ali, com a ajuda de um, de outro, especialmente da avó, aquela que aprendera a chamar de avó, avó Luzia, queria na verdade chamá-la de mãe, mas ela nunca permitiu. O lugar e a avó eram sócios nos anos, no tempo escorrido, cubo de gelo derretido ao sol e absorvido pelo chão, impossível volta.

A avó guardava algo, não sabia o quê, algo que ela entregaria a um homem bom, como ela dizia, um homem bom virá, e dizia isso sempre no dia vinte de janeiro, vinte e cinco de novembro e treze de dezembro, dias dos seus três santos. O treze de dezembro ele sabia, era a festa de Santa Luzia, aniversário da avó. Havia comida boa nestes dias e aquele anúncio estranho. Mas no dia de Santa Luzia, além da comida boa ela lhe reservava uma sacola de doces, balas, bombons. A avó, sim, a avó. Precisava visitá-la. Ela sabia dizer coisas, não lia cartas, mãos, não fazia despachos, não fazia grandes rezas, mas sabia de coisas do futuro, fragmentos, pedaços, mas sabia.

21 janeiro 2011

Inesperado sol

37

O estivador apareceu na porta do bar e olhou para um lado e para o outro, procurava-o com certeza, voltou a entrar. Dias apertou o que sobrara do cigarro sobre o cimento velho esbranquiçado da calçada com uma força excessiva como se esmagasse debaixo da brasa que se ia fazendo em cinzas um bicho peçonhento, uma lacraia, um verme qualquer. Levantou-se, agia como se estivesse numa cena de cinema, imaginava-se sempre num filme, cada insignificante momento ganhava importância, seus gestos ganhavam valor, às vezes cansava-se, umas poucas vezes esquecia aquilo, mas sempre retornava-lhe essa idéia, era preciso atuar bem, esfregou uma mão sobre a outra, ia à luta, respirou mais fundo o ar, ah o vento estava carregado de maresia, ainda mais forte do que de costume, gostava da maresia, lembranças de quando o abandono ainda não era contaminado pela consciência, quando o presente, duro, áspero, se contorcia em alegrias de viver livre, enganosas, traiçoeiras, mas alegrias. Bem sabia a um tempo que a alegria pode burlar a realidade, a ela se permite tomar de Deus este atributo, criar mundos. Dias levantou-se e voltou ao trabalho no balcão do bar, tinha se comprometido com a dona daquele malcheiroso estabelcimento que a ajudaria naquela noite. Já tinha trabalhado ali um tempinho, mas não fora capaz de suportar a quietude e as sombras daquele lugar, ali as cenas se desenrolavam muito vagarosamente.

16 janeiro 2011

Inesperado sol

36

A um passo, Dias ficou a um passo do que poderia fazer, pegar aquele molho de chaves, não sabia exatamente para quê, talvez para devolver no dia seguinte com uma desculpa qualquer, ou para tentar abrir quem sabe certas portas, já imaginava dinheiro, algo de valor por detrás de alguma fechadura naquele mundo abandonado e enferrujado de galpões e galpões e galpões, casas velhas, salas abarrotadas de papéis, escritórios empoeirados, mas teve um descompasso entre o que poderia fazer e o que acontecia naquele momento. O gerente, sem saber, tornou-se um outro caminho, uma outra possobilidade. Sonhos que recorrem, uma ilusão de amor, estas coisas difíceis, ainda mais para ele, ilusões que sempre voltam, desejos que sempre estão à porta pedindo realização. Ao invés de tomar aquele molho de chaves preferiu aproximar-se mais do gerente, decidiu isso ao conhecê-lo no baile, aquele rosto entre o preocupado e o pensativo, o modo com que olhava a todos mesmo quando levava o copo de cerveja à boca, seu jeito de levar a amiga na dança, o braço sobre seu corpo apoiando a mão firme na lateral do quadril, enlaçando-a, quase enlaçando suas nádegas, puxando-a para sí ali embaixo e afastando-a na altura do rosto, negando-lhe na dança a intimidade que não fosse aquela, dos quadris apertados um sobre o outro. Ganhar sua amizade, não seria fácil, ou seria, teria que agir.

A estratégia agora, nem de todo era uma estratégia, o que seus pensamentos definiam agora era que devia agir com umas boas doses de humildade e paciência, paciência não teria muita, na humildade talvez fosse capaz de conduzir suas atitudes mais facilmente, não por lhe ser esta uma característica própria, mas pelas humilhações, pão de cada dia. Sentiu perder a excitação, o corpo se afrouxava, a mente não. Desenrolou-se logo de tudo pedindo desculpas, O senhor deve mesmo estar cansado, e eu aqui incomodando o senhor com esta conversa, mas pode contar comigo, ajudo no que for possível. Bateu a porta da caminhonete, afastou-se dois passos para trás e esperou o gerente dar partida. Viu aquelas luzes vermelhas se indo, desejou ir-lhe atrás, mesmo que a pé, correria, isto é certo, se cedesse ao desejo, a casa não ficava longe, e chegaria logo depois, mas virou-se e voltou para o bar. Antes sentou-se num degrau de uma casa ao lado do bar e ficou pensativo, fumando. Sentiu um leve movimento na boca do estômago, algo que se aparentava a um soluço, tinha este sintoma quando queria falar e não falava, quando engolia as próprias palavras, amargas na volta para o fundo da garganta, grossas e ásperas, um soluço, precisava beber alguma coisa, levou novamente o cigarro aos lábios numa tragada mais forte puxando a brasa bem próxima dos lábios.

14 janeiro 2011

Inesperado sol

35

O que você quer? reagiu Augusto assustado. Saí para fumar, respondeu o rapaz admirando a caminhonete e dizendo gostar daqueles modelos antigos. Saiu para fumar disse Augusto num tom que era outro, bem diferente do que a frase dizia, saiu para fumar, repetiu irritado. O rapaz ignorou a leve ironia, e demonstrava interesse pelo carro, rodeando-o e olhando os detalhes. Faz tempo que o senhor tem este carro? O modo de segurar o cigarro, de dar as tragadas tinha um quê de ensaio, de quem fuma a pouco tempo. O senhor não está gostando da festa? vai para outro lugar? fez outra pergunta sem esperar a resposta da primeira. Não, simplesmente vou para casa, tenho muito trabalho, muitas coisas a ver, respondeu, preciso descansar. Olha, disse o rapaz, se o senhor precisar de um auxiliar de escritório tenho experiência, no quartel fiquei nos trabalhos administrativos ajudando o sargento. Sim, disse Augusto, obrigado, mas por ora não vou contratar ninguém, me são suficientes os homens para a limpeza do lugar, recolhendo o ferro-velho; neste momento ja se assentava ao volante, e o rapaz, pela porta do carona que tinha pedido licença para abrir, admirava o painel da velha chevrolet. Sou apaixonado por este tipo de carro, disse o rapaz enquanto dobrava-se sobre a poltrona para olhar melhor. Quando disse apaixonado separou demais as sílabas, e a palavra ficou com um tom afetado. Não se importou com isso, até parecia ter um certo prazer, numa postura completamente diferente daquela que adotava debaixo dos olhares vigilantes do estivador. Sobre o acento do carona estava o molho de chaves.

13 janeiro 2011

Inesperado sol

34

Ao voltar ao balcão um outro ajudante tinha se juntado aos demais, um rapaz dos seus vinte e poucos anos. A mulher se mantinha afastada de atendê-lo especificamente, como se cumprisse ordem, veio o rapaz, veio com toda a prontidão, estendendo a mão e se apresentando com uma efusão de simpatia da qual logo se recompôs como se percebesse uma falha em si mesmo, um exagero, sempre se recriminava, mas não conseguia vencer aqueles modos, discretamente olhou para um lado e para o outro e continuou no seu trabalho. Justino Barroso percebeu a cena com atenção, havia em suas maneiras, no olhar disfarçado, um ato em premeditação de fera. Augusto observou, sentia que a posição que ocupava no imaginário daquelas pessoas dava-lhe uma importância com a qual não sabia lidar em função da falta de habilidades, aquelas que se adquire no desempenho cotidiano da autoridade. Durante o tempo que esteve ali Augusto sentiu que o rapaz o seguia, quase o perseguia, com um olhar morno, de chá de camomila, mão leve de barbeiro sobre o cabelo, nao sabia explicar. Saiu para respirar, o ideal seria ter agora um cigarro, fumar, fumar sem pressa, como aprendera na casa de dona Irene; mas abandonara o fumo com a ajuda da esposa, mas na fuga voltara a fumar. Entrou no bar, comprou um maço e foi-se embora, a chuva tinha passado, a noite estava clara, a lua brilhava em grandes espaços entre as nuvens, o ar era limpo, noite boa para andar solitário por ali, fumando, mas era um lugar ainda desconhecido, melhor se prevenir com certos cuidados. Como ainda era cedo para deixar a festa pensou que ninguém imaginaria de que se ia pra casa. Quando já chegava perto da caminhonete logo percebeu que sua saída não fora assim tão despercebida, o rapaz veio ao seu encalço.

12 janeiro 2011

Inesperado sol

33

O senhor é um homem sonhador, e carajoso, disse o estivador, pode me chamar de Barroso, todos me conhecem assim, é claro que meu nome, como já me apresentei, é Justino, mas de fato prefiro o sobrenome Barroso, me acostumei, o senhor... deseja uma nova cerveja? perguntou na sequência da conversa deixando um espaço na fala para depois de senhor. Augusto, meu nome é Augusto, respondeu. Admirou-se da tranquilidade em dizer o próprio nome. O senhor Augusto é um homem corajoso, o senhor acredita mesmo que tudo isto pode voltar a funcionar? continuou perguntando referindo-se ao complexo industrial. Augusto sorriu, disse um talvez... talvez, e se foi retirando, pedindo as devidas licenças. Havia ali naquele homem algo que precisava entender melhor, depois voltaria e veria por onde o tal Barroso iria conduzir a conversa. Foi-se na direção de uma mulher com quem trocava olhares, conhecia muito bem as voltas e as sílabas daquelas miradas; a escola que frequentara, a casa de dona Irene, não lhe deixava falhar. Era linda a menina, não mais que vinte anos, mas exacerbada na sensualidade e no desejo de viver uma noite feliz. Com certeza o que isso dizia é que a vida que levava era uma vidinha dura e de muitos desprazeres cotidianos. Ele não se importou com isso, não se importava com isso com as mulheres de dona Irene que muito bem sabiam separar, ou se tinham treinado para separar, a pobreza de vida que viviam das coisas da cama. Dançaram e os passos da dança diluiram com a cerveja aqueles outros pensamentos, de correntes pesadas, que lhe amarravam a idéia o tempo todo: o que tinha feito, meu Deus, o que tinha feito? o que fazer agora? Quantos dias se passaram desde a morte de Rosimara, perguntou-se, não soube responder, não pensou mais nisso, o clima no bar instava-o outras coisas.

11 janeiro 2011

Inesperado sol

32

As pessoas estavam ali em número bem maior do que pudesse imaginar num baile tão apressadamente organizado; as notícias de fato corriam rápido, não podia vacilar e nem podia esquecer sua condição. Cumprimentou os que por ele passavam, dispensou as gentilezas exageradas posicionando-se entre a firmeza e a simpatia e dirigiu-se ao balcão. Encostou-se, pediu sua cerveja e ficou de guarda das feições e movimentos de todos. A senhora do bar parecia outra, tinha remoçado pela maquiagem e pelos cabelos bem cuidados e os olhos pareciam mais vívidos, mas ainda assim ela escondia, ou tentava, nos entrecantos da voz, dos gestos, uma inquietude. Seu marido era da estiva, ele mesmo o disse na apresentação breve, com olhar oblíquo, a postura vulnerável de algum modo, apesar de acintosamente forte. É que a presença do gerente impunha ao homem uma postura, um controle de si mesmo, sabe-se lá qual, que deixava à mostra suas profusas ramas na maneira de esfregar aquele pano no balcão, um vaivém nervoso, não nervoso propriamente, mas exagerado nos intentos de limpar aquela superfície que não carecia mais de limpeza, a dar sinais de longas e ramificadas raízes subterrâneas.

10 janeiro 2011

Inesperado sol

31

Bem que poderia ter um paletó para ir ao baile, não tinha, mas cairia-lhe adequadamente a jaqueta ainda nova de couro marron escuro que trouxera na fuga junto com algumas outras básicas peças de roupa. Chovia e a peça lhe seria a solução para não chegar em mangas de camisa. A librina tinha se transformado em chuva, não das fortes, mas constante, e a temperatura já era bem amena, quase fria. Olhou-se no espelho e a lembrança levou-o outra vez para a casa da chácara; fora educado nas elegâncias, por assim dizer, pelas meninas de dona Irene; elas, que bem conheciam a transformação do moleque em homem feito, entre risos e trejeitos destituídos de timidez, davam as dicas, nem sempre acertadas, do que poderia ou não agradar aos olhos femininos, estas coisas do que falar, o que valorizar, que cheiro usar. Refinou-se no próprio charme com elas. Na verdade, além do que aprendeu destas etiquetas, de como se vestir, teve delas também como herança uma parte de alma, tinha um quê de feminino no modo de ver o mundo, sem perder contudo sua fama, e talvez isso explicasse seu sucesso com as mulheres, aquele rio de virilidade sem ostentação com um veio sinuoso de delicadeza. Perguntava-se ali olhando-se nos olhos o porquê de estar assim nesses momentos com a lembrança tão aguçada para a chácara. Queria lembrar-se de sua Rosimara, recriminava-se, mas a recriminação perdia convicção, era um esforço, uma lição disinteressante, sem nenhuma chance de ser assimilada, enquanto as outras, estas da casa da chácara, vinham aos borbotões.

09 janeiro 2011

Inesperado sol

30

Aquela casa com seus silêncios ofereceu-se sem resistência em suas portas e recantos como assim se oferecia a casa da chácara nos limites da cidade onde se cruzavam muros e cercas, milharais e oficinas de marcenaria. Ali, logo depois da ultima casa da rua, depois dos últimos paralepípedos, um longo muro e um portão imponente bem trancado, lá dentro, pelas poucas frestas, se via, ao fundo de uma alameda ladeada por mangueiras antigas, uma casa linda, grande, de paredes amarelinhas e janelas azuis. Ali, ainda bem novo, com seus doze, mas suficientemente esperto e pronto para os negócios, sabia muito bem oferecer favores à dona Irene. Lembrava seu passado em sua distante cidade enquanto vasculhava a casa do gerente, procurando portas trancadas ou gavetas, sem descobrir nada. Dona Irene o tinha por moleque protegido desde quando, por esperteza, ele se infiltrara pela chácara para catar mangas, com cara de ingênuo, mas cujo propósito mesmo já bem antes definito era se avizinhar da intimidade daquele sítio onde decerto encontraria algo que lhe fosse do interesse. Tornou-se enfim moleque de confiança da dona da casa, levava e trazia recados para homens importantes na cidade, prestava-se com muita solicitude a fazer favores para as meninas de dona Irene, estava sempre pronto. Sempre depois das aulas se arranjava bem em desculpas para se desvincular dos outros meninos e sorrateiramente ir até a chácara. Passava voando pelas ruas com sua bicicleta, ninguém se dava conta dos seus movimentos e dos traçados que fazia pelas ruas, não repetindo rotineiramente o mesmo percurso e chegando como um anjo que do nada aparece e do nada some. Logo que se sentiu aceito, depois das broncas nas primeiras investidas sobre as mangueiras com pedradas, ou balanções em seus galhos, trepado a ponto de cair, ponto de observação mais apropriado a olhar pelas janelas do segundo pavimento, as mais misteriosas janelas, seus interesses libidinosos insistentemente vazavam em meios-sorrisos, olhares dúbios, meiguice tímida. Não resistiram, caíram-se de cuidados e mimos para com o menino, tornou-se homem. Tornou-se homem frequentando a casa e ao encontrar sua Rosimara se empenhou duramente, como um estoico, a fazer outros passos que não aqueles habituados com os rumos, muitos, que dariam na chácara.