16 outubro 2009

V

Também pássaros
e a árvore solitária
num campo que passa.
Uma rua à noite, papelões
e passos vagos. Longe,
olhar que se perde. Então
as horas sondam
as asas dos sonhos
e dizem impossibilidades,
e penduram aflições em seus
voos.

... talvez seja cansaço.
IV

No meio o ponto de início,
uma ocasião. Possível
caminho. A pedra,
uma outra atitude.
O futuro não absoluto, nem senhor,
mas presente ali, na manhã.
A manhã que se vive
mesmo já sendo tarde.

... talvez seja ternura.

15 outubro 2009

III

Recorre-se a si mesmo
e não se é. Escora-se
em muro áspero,
destituído. O conhecido
estrangeiro fica,
e o limite.
O presente torna-se dia
a dia. O que se vê
é o que não pede mais
para ser visto.

... talvez seja tédio.
II

O que se falou foi apenas
um desvio. Amor
que faltou, ou sobrou.
Depois da curva
sentiu-se pendido,
mesmo estando bem ereto.
A ferida: um longe, perto
no aperto.

... talvez seja saudade

14 outubro 2009

(talvez seja é a nova publicação
de poemetos a partir de hoje)

I

Dizer dias seria
dizer morrer. Há
portas que se abrem
para que se possa escrever
outra frase: dizer dias
é dizer romper, quebrar
os olhos vidrados.
Transfigurar-se
do medo ao festejo

... talvez seja gratidão.

08 outubro 2009

Acho que vou encerrar esta série
de poemas - o que contais? - hoje.

VI
(O que contais?)

Ele teve um sonho, mas... ter
é punhado de areia na mão.
Logo a mão e a areia serão um.

Ele sonhou
que poderia ser deus,
no entanto, apenas
enquanto dormisse.

Ao acordar até poderia usar o excesso
do ser deus. Poderia
retirar da pele fragmentos de luz
e fazer assim uma limpeza
da poesia grudada no corpo.

Sapatos, asas, destino,
tudo seria deixado
na soleira da porta de entrada,
e tudo tomado de novo, na saída,
depois do amor.

O que se conta,
incertas verdades, é lâmina
afiada em pedra corisco,
algo que verte:

poema
não carece disso ou daquilo,
basta interromper um rio
e romper-se líquido em outro.

07 outubro 2009

V
(O que contais?)

Ali esfaquearam muitas palavras,
puro amor de transformá-las
em carnes de sustento. Mas

aquele não lhe parecia o lugar.
Avistavam-se as ânsias
de dar ao dia o que lhe bastasse.

Olhou a última página,
a mente do poeta entre
as exigências e o tédio;
o espírito do cientista entre
nuvens de gás e o abismo do cosmo.

Por fim o emblema na escolha:
um cristal, a tarde
e o canto de um passarinho.

Na porta de ir embora lhe esperava,
ao lado do sentido possível,
a experimentação de outra pronúncia.

Uma ponte inexplicável
incompletava-se
entre o sol e o coração.
Faltava-lhe um vão.

06 outubro 2009

IV
(O que contais?)

Ele tremia. As palavras
lhe ofereciam uma perturbação.
Talvez uma viagem, do medo
à esperança. As exigências

ancoravam alguns de seus navios.
Imprescindíveis portos.
Prescreveram-lhe poesias.

Aborreciam-lhe as rimas e o mormaço.
Sabia do morno que corria pelas horas,
mas não das orquídeas amarelas
do jardim, ali. Seria a loucura de apenas

um novo olhar. Bach em alemão
significa riacho. Beethoven diz que Bach
deveria significar mar.

Onde deixar que pousem
os pássaros dos olhos?

04 outubro 2009

III
(O que contais?)

O que ele lembrava,
mais do que das exigências,
era de um desprender-se de uma estrela,
e da queda
na inexplicação de si mesmo.

Mas, ao mesmo tempo,
era por dentro,
nas correntezas de dentro,
que um sentimento sem solução
se lhe aparecia.

Inclinou-se e pensou
no que fazer. Havia vários
corações para aquele gesto
de inclinar-se: qual deles
tomaria para viver aquele
ínfimo momento?

02 outubro 2009

II
(o que contais?)

Ele se lembrou
das exigências
que se lhe tinham sido feitas.

Haveria de plantar
o fogo do fogo
e alimentá-lo
com o vinho do desate.

O diamante do horizonte cegou-lhe,
para que pudesse sentir
a superfície fria do tempo.

Ao fim do dia
voltou-lhe a luz
e as hesitações.

Haveria de, por ofício,
afinar o violino
com o peso
ou a ternura das horas.

Ou, tatear sob o dorso da língua
indícios de novas pronúncias.