3
1Nao se pode esquecer
que as ardências se alastram
pelos prados. 2Brotam pedras
do chão tingidas de vermelho.
3Sofrem os que respigam
em pequenas vasilhas a vida de um dia,
e os que fazem caminho no próprio suor.
4Os salteadores aproveitam-se
da secura dos descampados.
5Não se pode rachar uma madeira
sem que a vida dele seja atingida.
6Reconhece-o quem se veste
com olhos de girassol.
7Da colina escorrem seus passos
em riachos. 8Remédio é o que está
no lado de dentro das letras.
12 maio 2009
11 maio 2009
2
1Talvez isso: avançar parte da noite
caminhando, enquanto ainda na mente
há uma luz resvalada do dia.
2Depois escolher um lugar
para por o coração em descanço
e deixar os pensamentos soltos
para que estiquem suas asas.
3Então meditar antes do cair no sono
sobre a incapacidade de escrever a flor
ou o astro que a ele seja semelhante.
1Talvez isso: avançar parte da noite
caminhando, enquanto ainda na mente
há uma luz resvalada do dia.
2Depois escolher um lugar
para por o coração em descanço
e deixar os pensamentos soltos
para que estiquem suas asas.
3Então meditar antes do cair no sono
sobre a incapacidade de escrever a flor
ou o astro que a ele seja semelhante.
-
Dauri Batisti
4Foi longe o grito cheio de flores
e ninguém viu. 5As crianças
naquele momento brincavam de estrelas
e pararam. Prestaram atenção
no vento, no tempo e se entreolharam
ainda mais vivas. 6Depois voltaram
a jogar as sementes umas nas outras.
7As de peito voltaram a mamar.
8Ele disse. Olhe. Há uma porta ali.
e ninguém viu. 5As crianças
naquele momento brincavam de estrelas
e pararam. Prestaram atenção
no vento, no tempo e se entreolharam
ainda mais vivas. 6Depois voltaram
a jogar as sementes umas nas outras.
7As de peito voltaram a mamar.
8Ele disse. Olhe. Há uma porta ali.
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Dauri Batisti
09 maio 2009
1
1Estava ali. Seu rosto
(nele algo meu)
tinha vários espantos,
uma beleza, e o peso do dia.
2Foi um tempo curto,
o mundo,
um e outro. Eu.
3O estranho. Quem era?
4Ele falava coisas pequenas.
Seus olhos são grandes.
O sol muito quente.
O que ele falava tornou-se
um mundo.
5Meu coração se enxergou.
Vi meus passos curtos
e mesmo assim desejei
atravessar o deserto.
1Estava ali. Seu rosto
(nele algo meu)
tinha vários espantos,
uma beleza, e o peso do dia.
2Foi um tempo curto,
o mundo,
um e outro. Eu.
3O estranho. Quem era?
4Ele falava coisas pequenas.
Seus olhos são grandes.
O sol muito quente.
O que ele falava tornou-se
um mundo.
5Meu coração se enxergou.
Vi meus passos curtos
e mesmo assim desejei
atravessar o deserto.
6Naquele olhar ouvi:
é uma voz que te protesta
que te elabora em planícies,
vales perdidos. 7Estas montanhas
ainda não são as mais altas.
Vai-se por entre elas
teu caminho. 8Dai por diante
não entendi mais nada.
9De tudo ficou, todavia,
que eu devia olhar os pardais
e as cambuciras com mais atenção.
-
Dauri Batisti
08 maio 2009
O que dá na telha e nas feiras
(sexta-feira)
Inconclusos versos,
sextos passos
incompletos.
É obra a vida,
inacabada. Inacabado
sempre, inquieto, sigo
***
a arte de dobrar as esquinas,
as quintas e as sextas,
em ângulos de amor,
tento. Escultor
também quero ser,
quero martelo e cinzel,
pedra já tenho. Os dias,
***
os que se passam,
um comboio,
viram páginas. Outro
verso me inicia
em novas perplexidades:
outros dias,
páginas para outros livros
(sem ponto final)
(sexta-feira)
Inconclusos versos,
sextos passos
incompletos.
É obra a vida,
inacabada. Inacabado
sempre, inquieto, sigo
***
a arte de dobrar as esquinas,
as quintas e as sextas,
em ângulos de amor,
tento. Escultor
também quero ser,
quero martelo e cinzel,
pedra já tenho. Os dias,
***
os que se passam,
um comboio,
viram páginas. Outro
verso me inicia
em novas perplexidades:
outros dias,
páginas para outros livros
(sem ponto final)
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Dauri Batisti
07 maio 2009
O que dá na telha e nas feiras
(quinta-feira)
A sinceridade do que se diz aqui
é forjada no fogo, dobrada pelo ferro.
Mas é pouca. Do mais tudo é mentira.
Invenções reais de um coração brincalhão,
e de um mundo cão,
deixadas por aí, pelas estradas e feiras.
Pensando bem, as palavras que expoem
minhas sinceridades ficam ao lado
da estrada. Quintas sinceridades.
***
É a cerca, o mato, uma casa perdida,
uma pessoa estendendo a mão. Não se sabe,
daquela pessoa que acena, que caminhos faz,
que caminhos fez, que caminhos fará,
porquanto os caminhos são feitos dentro,
por dentro, em frágeis conduções.
O aceno de mão, sumindo, sumindo
é uma performance. A poesia
sugere e ensina que é, assim,
um modo verdadeiro de dizer amor.
***
O amor que na quinta se colhe
é representação do que escorre por
dentro do caule espinhoso e que
nunca será colhido. O que é
de dentro em parte vira, fora, rosa, gesto.
Joga a quinta aos meus olhos seus jogos,
e me pega. Tudo que falo é ficção, talvez
autoficção. Até os mais reais sentimentos.
(quinta-feira)
A sinceridade do que se diz aqui
é forjada no fogo, dobrada pelo ferro.
Mas é pouca. Do mais tudo é mentira.
Invenções reais de um coração brincalhão,
e de um mundo cão,
deixadas por aí, pelas estradas e feiras.
Pensando bem, as palavras que expoem
minhas sinceridades ficam ao lado
da estrada. Quintas sinceridades.
***
É a cerca, o mato, uma casa perdida,
uma pessoa estendendo a mão. Não se sabe,
daquela pessoa que acena, que caminhos faz,
que caminhos fez, que caminhos fará,
porquanto os caminhos são feitos dentro,
por dentro, em frágeis conduções.
O aceno de mão, sumindo, sumindo
é uma performance. A poesia
sugere e ensina que é, assim,
um modo verdadeiro de dizer amor.
***
O amor que na quinta se colhe
é representação do que escorre por
dentro do caule espinhoso e que
nunca será colhido. O que é
de dentro em parte vira, fora, rosa, gesto.
Joga a quinta aos meus olhos seus jogos,
e me pega. Tudo que falo é ficção, talvez
autoficção. Até os mais reais sentimentos.
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Dauri Batisti
06 maio 2009
O que dá na telha e nas feiras
(quarta-feira)
No chão amanhece, demora,
mas há amor no que se levanta,
mesmo que ausente amor, pequeno.
O silencio - quando se acorda -
incita à rebeldia, não sei bem,
a vida é luta, acho que é. Festa
***
tomara fosse em todas as feiras. O que
ficou sobre a mesa do dia, evidente
cartas jogadas, quartas segredos
desfeitos, me divulga, me vende,
me comercializa, me esquarteja, fico
reduzido a um grito: meu Deus! A vida,
mães que choram, filhos que morrem
todos os dias com tiros na cabeça. A vida
(diem, aquam, solem, lunam, noctem....)
***
seria o projeto do universo? Esse frio infinito
cansado de solidão se arranjando pobre em nós
em olhares, desejos e feiras a se repetir.
A memória da poesia era - ou é - a beleza
do que coube em palavras, o temporal,
o vendaval, o roseiral de onde se colhe.
A rosa quarta tenta escapar da palavra
escrita que lhe extrairá seu exíguo perfume.
(quarta-feira)
No chão amanhece, demora,
mas há amor no que se levanta,
mesmo que ausente amor, pequeno.
O silencio - quando se acorda -
incita à rebeldia, não sei bem,
a vida é luta, acho que é. Festa
***
tomara fosse em todas as feiras. O que
ficou sobre a mesa do dia, evidente
cartas jogadas, quartas segredos
desfeitos, me divulga, me vende,
me comercializa, me esquarteja, fico
reduzido a um grito: meu Deus! A vida,
mães que choram, filhos que morrem
todos os dias com tiros na cabeça. A vida
(diem, aquam, solem, lunam, noctem....)
***
seria o projeto do universo? Esse frio infinito
cansado de solidão se arranjando pobre em nós
em olhares, desejos e feiras a se repetir.
A memória da poesia era - ou é - a beleza
do que coube em palavras, o temporal,
o vendaval, o roseiral de onde se colhe.
A rosa quarta tenta escapar da palavra
escrita que lhe extrairá seu exíguo perfume.
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Dauri Batisti
05 maio 2009
O que dá na telha e nas feiras
(terça-feira)
Terçar pedras e fazer estradas.
De tanto desafiar as sombras,
as rosas e o fogo se irmanam
em vermelhos delicados e em
hastes dobradas. Sim,
já sei, andar. Vou tentar
interligar caminhos, formar
traçados, criar jardins. Mas não sei
remover o peso das horas,
libertar-me dessas neblinas.
***
As profundidades explodem,
por fora o mundo fica ainda mais
estranho, sendo casa, todavia.
E pergunta-se, onde estamos.
Bronze o sino, antigo sol, espírito
que se invoca sem saber os ritos
em sôfregas tentativas de dizer luz.
A luz está nas letras que ainda
não formaram palavras.
As ruas tomaram os meninos
das escolas. Altera die.
***
O relógio corre. Terça tédio,
indiferença, lenha de incêndio fácil
para a maldita fogueira
que esquenta o mundo
e queima a floresta.
Sofrimento e primavera
se articulam em estranhos laços
na generosidade de quem
barqueia os dias com amor.
O dia é um rio lindo que vaza.
(terça-feira)
Terçar pedras e fazer estradas.
De tanto desafiar as sombras,
as rosas e o fogo se irmanam
em vermelhos delicados e em
hastes dobradas. Sim,
já sei, andar. Vou tentar
interligar caminhos, formar
traçados, criar jardins. Mas não sei
remover o peso das horas,
libertar-me dessas neblinas.
***
As profundidades explodem,
por fora o mundo fica ainda mais
estranho, sendo casa, todavia.
E pergunta-se, onde estamos.
Bronze o sino, antigo sol, espírito
que se invoca sem saber os ritos
em sôfregas tentativas de dizer luz.
A luz está nas letras que ainda
não formaram palavras.
As ruas tomaram os meninos
das escolas. Altera die.
***
O relógio corre. Terça tédio,
indiferença, lenha de incêndio fácil
para a maldita fogueira
que esquenta o mundo
e queima a floresta.
Sofrimento e primavera
se articulam em estranhos laços
na generosidade de quem
barqueia os dias com amor.
O dia é um rio lindo que vaza.
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Dauri Batisti
04 maio 2009
O que dá na telha e nas feiras
(segunda-feira)
Escorre a água no chão.
Não escorro, nem me deito,
me peito de forças que não tenho.
A água vai, o cansaço não
escorre para o ralo. Não.
Não deve ser cansaço,
deve ser fado, enfado,
porre às avessas, não ter
aproveitado o tempo, a segunda,
para beber, beber, encher
a cara, a alma. Falta
... poesia.
***
Será a segunda-feira
aquela tua preferida
flor que o jardim perdeu
nos braços da Eva.
A segunda é um eu
virado em começos.
Mesmo segunda à noite
a menina vai para os bares
perto do cais.
Um poeta chinês é descoberto
e a segunda umidifica-se.
Dies imago vitae.
***
O dia pode ser lugar
de exílio de onde se grita
para que volte o gavião-rei,
pássaro que já me pertenceu.
Depois me hospedei na ansiedade
e voei
para ontens e amanhãs.
Bati com as asas em pedras.
A física quântica me alcança ,
e desejo,
ser mago de viver agora novamente
nos cumes do coração do gavião
de onde avisto cavalos soltos.
(segunda-feira)
Escorre a água no chão.
Não escorro, nem me deito,
me peito de forças que não tenho.
A água vai, o cansaço não
escorre para o ralo. Não.
Não deve ser cansaço,
deve ser fado, enfado,
porre às avessas, não ter
aproveitado o tempo, a segunda,
para beber, beber, encher
a cara, a alma. Falta
... poesia.
***
Será a segunda-feira
aquela tua preferida
flor que o jardim perdeu
nos braços da Eva.
A segunda é um eu
virado em começos.
Mesmo segunda à noite
a menina vai para os bares
perto do cais.
Um poeta chinês é descoberto
e a segunda umidifica-se.
Dies imago vitae.
***
O dia pode ser lugar
de exílio de onde se grita
para que volte o gavião-rei,
pássaro que já me pertenceu.
Depois me hospedei na ansiedade
e voei
para ontens e amanhãs.
Bati com as asas em pedras.
A física quântica me alcança ,
e desejo,
ser mago de viver agora novamente
nos cumes do coração do gavião
de onde avisto cavalos soltos.
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Dauri Batisti
02 maio 2009
XV
Um último cântico, de acre voz de pranto,
é entoado diante da alameda ao entardecer.
A promessa
escondida no fundo dos versos tristes,
já se levanta. A penumbra que persiste sobre
a ponte,
se perceberá depois, era só uma nuvem
de uma noite que também passou. Os altos
segredos das horas serão entregues mais
uma vez:
mais um dia. A vida se dá nos dias,
não nos anos, nem nos séculos.
Palavras
e versos são estes inexatos mapas
dos seus territórios. O que saber?
Há muitas coisas fechando passagens,
relógios
insanos, bússolas desmagnetizadas, produtos
que se grudam nos corpos e nos desejos.
A poesia
esteia pontes, ainda que precariamente.
Um último cântico, de acre voz de pranto,
é entoado diante da alameda ao entardecer.
A promessa
escondida no fundo dos versos tristes,
já se levanta. A penumbra que persiste sobre
a ponte,
se perceberá depois, era só uma nuvem
de uma noite que também passou. Os altos
segredos das horas serão entregues mais
uma vez:
mais um dia. A vida se dá nos dias,
não nos anos, nem nos séculos.
Palavras
e versos são estes inexatos mapas
dos seus territórios. O que saber?
Há muitas coisas fechando passagens,
relógios
insanos, bússolas desmagnetizadas, produtos
que se grudam nos corpos e nos desejos.
A poesia
esteia pontes, ainda que precariamente.
-
Dauri Batisti
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