17 outubro 2008

Absolvei as pessoas

Comiam o dia.
Não sei quem, nem que dia.
Quem estiver no terraço
será outro, diferente.
O cadáver da flor
deixará cair a semente.
O juiz dará à noite
a posse do tempo.
Foi ela que comeu o dia.
Absolvei as pessoas,
senhor juiz,
gente passa com o tempo.
Gente não come dia,
gente vive de alegria,
e quando não tem,
aguenta.

Vejo o céu. Escuro.
A noite não tem luar.
Você se pega doido no terraço?
Eu também. Me desfaço no sol
do dia seguinte.

Não sei onde planto a semente.
É um amorzinho.

16 outubro 2008

Tintim!

Há que se ter cuidado na colheita destes frutos das tristezas,
são delicados, são cerejas, framboesas e morangos.
São romãs, maçãs e rubis, vermelhos de dor, frágeis.
O amor neles é um sabor a se distinguir. Tristezas:
ninguém sabe a hora dos cálices em que transbordam os sumos,
onde começam e onde terminam as estradas e o que elas trazem.
Talvez levem cada vez para mais longe. Há que se ir.
A colheita destes frágeis frutos não se vende.
Vendem-se livros usados,
o suficiente para cobrir as despesas das demoradas andanças
e festas
entre uma colheita e outra.
Tintim! Saúde!

14 outubro 2008

As palavras podem pegar

Ando sofrendo de um sentimento de porto, sei lá,
preciso falar, danei a ver as pedras escuras do cais
brilhando, brilhando como se fossem estrelas.
Acho que são portais para a felicidade. Penso
muito nisto quando estou em alto mar.
Você acredita? Mas é segredo, por favor.
Falei para alguns, ninguém valoriza essas visões.
Você me entende? Não posso falar, mas só de pensar...
as palavras se levantam em alvoroço, doidas;
querem se organizar em versos sobre o porto
e falar das pedras que brilham no cais.

O fogo escasseia por dentro nas veias,
uma chuva de outubro mais fria do que se espera
se soma ao sal, ao cansaço, ao suor.
No desalento também sinto desejo de ser pedra,
Você já sentiu isto? Vez ou outra
quando descarrego os peixes do barco
um zombeteiro, bêbado, falando das horas que me sufocam,
do trabalho que me mata, e das pedras que brilham,
chama-me de aluado, doido, corno. Não respondo nada.
As palavras que quero dizer não posso,
para outras então é melhor calar. Você concorda?
Mas às vezes o que ele diz me dói. Caio em mim
e chego a ouvir o baque surdo da dor,
por dentro, sabe como? Peixes, peixes, dor, gelo
queimando os dedos, peso quebrando o orgulho,
você já sentiu essa queimação?

Até o mar quando tem manchas de óleo
bate e amordaça as pedras do cais
para que elas não falem o que sei, o que vejo.
Elas brilham, volto a dizer, não sei se confio em você
ou se necessito falar. Falo. Deus é verbo.
É febre o que tenho? Sinto dor no corpo. Você é doutor?
Isto vai passar? Voltarei a ver as pedras só como pedras?
Ver o cio das coisas, ver Janelas em pedras,
de que me adianta? Mas eu sei, acredito,
o que escapa até da música as palavras podem pegar.
Se você também acreditar falaremos juntos.

12 outubro 2008

Combinei com o porto

Combinei com o porto, numa noite qualquer,
quando a previsão do tempo anunciar
sol e céu aberto para a manhã seguinte,
afundar todos os navios. Todos. Os do centro,
os do tubarão e os da barra. Barcos e botes também.
Não os afundaremos por maldade, mas,
por brincadeira, para que no dia seguinte
encarando o sol pela frente, no alvor, lindo,
a cidade possa ver os navios emergindo,
trazendo do fundo do olhos outros mundos;
e será bom contemplar os mistérios que estão abaixo,
os que estão acima do horizonte e outros ainda
que viajam nos espaços entre um olhar e outro,
além daqueles que se disfarçam na flor
que murcha sobre a mesa. Quem sabe assim,
estas paisagens nos embarquem em descobertas
de que as coisas são coisas, rugas na superfície
do mar-luz-esmeralda-liquor medular,
o doce nada, beleza que nos inunda
e nos desenha como lavas solidificadas de um fogo
que escorreu das explosões de um único e grande amor.

(Ao mesmo tempo é tão bom existir rente às coisas,
coisa com coisa, mesmo que só por um tempinho,
elas são tão bonitas; e poder tocar,
cheirar, comer, ouvir e ver, ver, ver.
Vamos ver os navios no porto, vamos?)

10 outubro 2008

Lágrimas abafadas

Caiu sobre o porto uma nuvem escura,
na imaginação um mar avoluma suas ondas,
porcos de uma alta barreira se lançam, assombro,
as bolsas nas capitais do mundo despencam,
águas espumosas ouvem seus baques em pedras vermelhas.
Os navios ancorados se avistam pelas luzes sobre as águas
como se um feiticeiro tivesse destravado cadeados de livros
e topázios de poesias emergissem enflorecidos de planta marinha
realizando recalcado desejo de crescer sobre os mares.
Estranho, a sedução das sombras em belezas raras
para quem se entorpece com o azul e a luz
do mundo que gira em empenadas rodas nos trópicos.
O dia fechado logo cedo, a sombra, o trabalho esperando
me lançam do porto este poema de sustos,
dirijo sozinho pensando em você, no que poderemos fazer
com a nossa felicidade. Como lhe peço para voltar?
Luzes dos navios de dia, topázios de poesia,
a mente voando. Christ, send-me the right word.
I confess, “I’m so tired of being alone”.
Dói o que espontânea e vagamente recordo.
No youtube encontro e canto, “I’m so tired of being alone;
I’m so tired of on my own”.
Caiu nuvem escura e ainda não chove para desaguar de vez
– chove, chove, pelo amor de Deus – sobre o porto estas águas.
“Won’t you help-me, girl”.
A ave, o porto e a falta de amor

Lá de cima do penedo constituído guardião do porto
a ave-dos-olhares sobrevoa meus pensamentos e me ensina
poderes santos para avistamentos de encontros, beijos e desejos.
Mas estou longe, muito longe em ansiedade, sentimentos
não sei bem quais, em mim falta de amor, isso sei.
Cargas retorcidas em contêineres viscerais carrego
mar afora bem longe ainda do cais que espero ver.
Faço um trato em oração com o porto
de não lhe negar um olhar qualquer que seja,
bem que veja em troca meu coração
o favorável pássaro guardião e me ajude
a reencontrar aquela parte de mim mesmo
que esqueci de olhar.

08 outubro 2008

Vejo o cais

Passo bem devagar
procurando lanternas abandonadas ao longo do porto,
andando com cuidado e certa ansiedade.
Vejo o cais abarrotado de anjos dançantes nos guindastes
e fantasmas melancólicos sobre as sacas de café.
Vieram de outros séculos e de outras águas
seduzidos pela cor, pelo cheiro, pelo mel da ilha
e pelo desejo de palavras em português.
E se prenderam me esperando,
a mim ou outro assim, endoidecido.
Deparo-me com um velho navio
maior do que pensamento que tira sono.
Nele embarco e desembarco num instante,
logo encontro entre cargas e estivadores,
sem entender, rosas amarelas ainda guardadas
em muitos botões prontos para serem esmagados
como se fossem uvas.
Esta é a rotina em porões, em corações
que sofrem delírios de encontrar um vinho novo.
No sabor, licoroso; na cor, de ouro.
Vinho proibido, luminoso, para ouvir da vida
seus conselhos. Antes do esmago
recolho o que posso e arranjo em janelas
estes botões que desabrocharão
sem hora certa em rosas solares
quando um passante borrifar neles
seus olhos úmidos de poeta
recolhendo de suas pétalas
com a ponta da língua trêmula e sedenta
gotas do vinho arcano que muda de sabor
de acordo com a dor e a luz de cada um.

07 outubro 2008

Porto qual será?

Hora marcada as flores, estrelas e pessoas têm a sua,
pra vir à luz e pra partir com ela. Porto qual será?
Atual é a hora e as vontades dançantes das marés,
mudanças, fluidez, tentativas, acaso, milagres, vida.

O porto define, comanda, seduz e conduz a cidade,
distribui o amor para alguns, a fortuna para outros,
uma certa saudade, maresia e poesia para todos,
além de fazer pensar, pensar... Como viver?

Na demora chega a chuva e o ônibus. Ele embarca, senta
e se apoia no vidro da janela.Vai pra casa. O que leva?
Olha para o porto – não há coisa mais linda –
para as águas, os guindastes, os contêineres,

muitos sentimentos, algumas luzes, os navios atracados,
um se indo, o apito – como dói – divulgando segredos e amores
de estivadores, catraieiros, prostitutas, imigrantes e marujos
dos mais de quatrocentos anos do cais. Que vida viveram?

Ele não sabe se ainda é tarde ou se já é noite, é triste.
– se uma luz tivesse que acender, teria dúvidas.
Sopra o vento sul, lágrimas bonitas escorrem nos vidros,
a chuva engrossa, embaça a vista, a vida segue. Para onde?

06 outubro 2008

Os dois pássaros

Atravessou o escuro bem escuro,
e a vida continuou a mesma.
Fechou cortinas e persianas
e a vida continuou a mesma.
Procurou o livro dos mistérios
e a vida continuou a mesma.
Então veio um dia quente
derramando azul por todos os lados
e ele teve lucidez para pensar
que os dois pássaros podiam estar ali,
e não tão longe onde procurou.
No exato meio do dia ele abriu janelas e portas
se jogou sobre o chão qual monge que relaxou na vigília
e se cansou das orações, hinos e compostura.
Inebriado pela luz difusa buscou nos cantos da casa,
no barulho do dia, nas paredes, no teto,
nos pensamentos, por dentro, debaixo das móveis
os dois luminosos pássaros da felicidade.
Só encontrou um... e ficou triste.

04 outubro 2008

Vai entender? nem mesmo eu

Recordo-me, esquadrinho meu peito, ressinto
desejos atrevidos pela minha mesma vida.
São estranhos estes momentos, andamento,
sou espetáculo e sou olho engastado, paisagens.
Montanhas equilibradas em beleza e desgaste,
córrego miúdo que pacientemente refaz suas curvas,
pomar cheio de frutas e mato, esquecido.
Vai entender? Nem mesmo eu. Me examino
traços e mau cheiro, espessuras e defeitos, imperfeições
que por dentro - nem sei se em mim - crescem,
crescem e me matam, ao mesmo tempo em que
estruturam uma ambição de brincar, brincar. Sem saber
pintar atirei as tintas no chão e marquei nelas meus pés
para escrever na língua desoriente
outra versão desta frase que me pronunciam.