Yasmim, Dália, Rosa
(e os monges)
Sente vontade
de viajar, sumir,
desanuviar
e deixar de sofrer.
Chover.
Mas continua seco,
os desertos avançam.
Os monges buscam solidão.
Um dia pensou
em ser monge
e abrir mão do amor.
Mas optou por Yasmim.
Choveu.
Mas o amor não vingou.
Tudo secou.
Os monges cantam na madrugada.
Acha melhor esquecer
o sonho de ser feliz
até que um dia,
sabe-se lá - Dália ou Rosa -
chova,
fazendo germinar
as sementes.
Os monges receberão noivos no jardim.
07 junho 2008
05 junho 2008
Filhos do sol
(inspirado na invocação dos indios Sioux)
Vem impetuoso vento, com o sol que se levanta,
em cada fragmento de luz, no brilho que afasta a escuridão
e, com a quentura que tudo transforma,
retira a borra, faze surgir em meu coração
o ouro e a ternura dos filhos do sol.
Vento sagrado, de fogo, que me conduz,
sempre e suavemente, a um novo amanhecer,
acorda-me para a vida, pelos meus sonhos
e permite-me expressá-los também com gestos,
brincadeiras, poesias, cantos.
Abre meus olhos para a beleza que está para além
dos desejos egoístas e das coisas que passam,
e, deixa-me ver, nas estradas, as pessoas como elas são.
Então, escolherei hoje, novamente, o amor, para ir adiante
na trilha que a sinceridade e a autenticidade me apontam.
Que eu saiba, ao seguir ao lado de outros,
falar com poucas palavras,
e que o meu espírito, quietinho, na tua presença,
compreenda as visões que me concedes
enquanto dou passos nos meus rumos.
(inspirado na invocação dos indios Sioux)
Vem impetuoso vento, com o sol que se levanta,
em cada fragmento de luz, no brilho que afasta a escuridão
e, com a quentura que tudo transforma,
retira a borra, faze surgir em meu coração
o ouro e a ternura dos filhos do sol.
Vento sagrado, de fogo, que me conduz,
sempre e suavemente, a um novo amanhecer,
acorda-me para a vida, pelos meus sonhos
e permite-me expressá-los também com gestos,
brincadeiras, poesias, cantos.
Abre meus olhos para a beleza que está para além
dos desejos egoístas e das coisas que passam,
e, deixa-me ver, nas estradas, as pessoas como elas são.
Então, escolherei hoje, novamente, o amor, para ir adiante
na trilha que a sinceridade e a autenticidade me apontam.
Que eu saiba, ao seguir ao lado de outros,
falar com poucas palavras,
e que o meu espírito, quietinho, na tua presença,
compreenda as visões que me concedes
enquanto dou passos nos meus rumos.
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Dauri Batisti
03 junho 2008
Ordinário, comum
Escrever poesia é fazer
o mais ordinário caminho,
é percorrer a mais comum das vias
e atravessar a ponte do desfiladeiro
por onde todos passam
mesmo sem fazer poesia.
Por isso fazer poesia é tentar escrever
(sem pensar em publicar livro,
sem certeza de nada,
sem necessidade de bondade
só pelo espírito de carpinteiro,
pelo gosto dos desertos
e das conversas esparsas)
uma pousada de poucos quartos
nos descampados áridos por onde segue
o mais ordinário caminho
e a mais comum das vias.
Escrever poesia é fazer
o mais ordinário caminho,
é percorrer a mais comum das vias
e atravessar a ponte do desfiladeiro
por onde todos passam
mesmo sem fazer poesia.
Por isso fazer poesia é tentar escrever
(sem pensar em publicar livro,
sem certeza de nada,
sem necessidade de bondade
só pelo espírito de carpinteiro,
pelo gosto dos desertos
e das conversas esparsas)
uma pousada de poucos quartos
nos descampados áridos por onde segue
o mais ordinário caminho
e a mais comum das vias.
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Dauri Batisti
02 junho 2008
Permissão para desengasgar o tempo
(ainda saudade)
Vou encontrar um jeito
de jogar estas bolinhas de gude
de tal modo que suas cores e posições
formem um universo no chão
onde as leis obedeçam ao coração.
Ele ordenará à história que dê um salto para trás
para me permitir refazer um caminho
igualzinho ao que já foi feito, sem mudar um nada.
Só terei permissão para desengasgar o tempo
fazendo-o, para isso, ouvir atentamente
uma música cantada por Nara Leão.
O apressado do tempo comeu num dia
o que deveria durar mil anos,
e anda entalado no meu peito, tossindo, tossindo
me fazendo padecer de saudades.
Mas quem joga comigo
nem se dá conta de que nem quero acertar
e mesmo querendo errar,
para formar o céu no chão,
planetas, trajetórias e sóis,
acabo ganhando a partida.
Recolho as paisagens no lugar das bolas de gude,
um pedaço de mar, um navio, a curva da ponte
e volto pra casa cheio de saudades.
Tudo foi só um pensamento.
Um vento que me levou pra onde?
Vou ter que inventar outra história e outro caminho
com os passos marcados pela saudade que sinto.
(ainda saudade)
Vou encontrar um jeito
de jogar estas bolinhas de gude
de tal modo que suas cores e posições
formem um universo no chão
onde as leis obedeçam ao coração.
Ele ordenará à história que dê um salto para trás
para me permitir refazer um caminho
igualzinho ao que já foi feito, sem mudar um nada.
Só terei permissão para desengasgar o tempo
fazendo-o, para isso, ouvir atentamente
uma música cantada por Nara Leão.
O apressado do tempo comeu num dia
o que deveria durar mil anos,
e anda entalado no meu peito, tossindo, tossindo
me fazendo padecer de saudades.
Mas quem joga comigo
nem se dá conta de que nem quero acertar
e mesmo querendo errar,
para formar o céu no chão,
planetas, trajetórias e sóis,
acabo ganhando a partida.
Recolho as paisagens no lugar das bolas de gude,
um pedaço de mar, um navio, a curva da ponte
e volto pra casa cheio de saudades.
Tudo foi só um pensamento.
Um vento que me levou pra onde?
Vou ter que inventar outra história e outro caminho
com os passos marcados pela saudade que sinto.
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Dauri Batisti
30 maio 2008
Sombrinha vermelha
A moça bonita cansada Maria
comprou uma sombrinha vermelha.
Não era o vermelho que ela queria,
mas era o vermelho que mais se parecia
com a outra sombrinha do tempo passado,
tempo perdido, tempo que corria
quando era cheia de sonhos menina.
O doutor andou preocupado
com os gastos de energia.
Ele ganha muito dinheiro
mas muito mais ele queria.
Por isso ele desligou as luzes da própria vida
e tirou as lâmpadas e a tevê do quarto da Maria.
O Peão de rodeio, sem pai e sem mãe, vaqueiro,
juntava um dinheiro pra comprar uma casa.
Em maio no fim da tarde linda ele casaria.
Caiu do touro, campeão que seria,
levou uma pisada no peito, morreu.
... e a Maria? Sofreu, sofreu
... por um tempo,
depois encontrou outro rapaz e casou.
Um sujeito esquisito que lhe proibiu de sair
com a sombrinha vermelha.
Só com a amarela é que podia.
Assim tudo seguia...
Até...
Até...
Até que o mundo acabou.
A moça bonita cansada Maria
comprou uma sombrinha vermelha.
Não era o vermelho que ela queria,
mas era o vermelho que mais se parecia
com a outra sombrinha do tempo passado,
tempo perdido, tempo que corria
quando era cheia de sonhos menina.
O doutor andou preocupado
com os gastos de energia.
Ele ganha muito dinheiro
mas muito mais ele queria.
Por isso ele desligou as luzes da própria vida
e tirou as lâmpadas e a tevê do quarto da Maria.
O Peão de rodeio, sem pai e sem mãe, vaqueiro,
juntava um dinheiro pra comprar uma casa.
Em maio no fim da tarde linda ele casaria.
Caiu do touro, campeão que seria,
levou uma pisada no peito, morreu.
... e a Maria? Sofreu, sofreu
... por um tempo,
depois encontrou outro rapaz e casou.
Um sujeito esquisito que lhe proibiu de sair
com a sombrinha vermelha.
Só com a amarela é que podia.
Assim tudo seguia...
Até...
Até...
Até que o mundo acabou.
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Dauri Batisti
29 maio 2008
Dança do fogo
Haverá para este caminho uma melodia
que me faça dar passos de dança?
Ando atravessado de incertas estradas
e desconfio sofro de encruzilhadas
que me enfraquecem as pernas e me derramam águas.
No que vou, no meu tropeço, ainda delineio um insano desejo,
uma esperança de outro ritmo, passos, danças.
Mas para os caminhos, cruzes,
para o titubeio e o vacilo, acho,
não haverá compasso melhor que o do ardor do fogo.
Esta é a dança: amar sem fingimento e seguir.
Deus, não me decepcione, mesmo sem fé ouso pedir,
não me deixe passar, não permita que minhas águas
se voltem ao mar sem umedecer uma semente qualquer.
Meu coração já foi pedra, seja fogo antes de ser ar.
Haverá para este caminho uma melodia
que me faça dar passos de dança?
Ando atravessado de incertas estradas
e desconfio sofro de encruzilhadas
que me enfraquecem as pernas e me derramam águas.
No que vou, no meu tropeço, ainda delineio um insano desejo,
uma esperança de outro ritmo, passos, danças.
Mas para os caminhos, cruzes,
para o titubeio e o vacilo, acho,
não haverá compasso melhor que o do ardor do fogo.
Esta é a dança: amar sem fingimento e seguir.
Deus, não me decepcione, mesmo sem fé ouso pedir,
não me deixe passar, não permita que minhas águas
se voltem ao mar sem umedecer uma semente qualquer.
Meu coração já foi pedra, seja fogo antes de ser ar.
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Dauri Batisti
26 maio 2008
Colhendo ostras
Homens e meninos nas pedras colhem ostras.
O sol se reparte em fracos reflexos de despedidas
nas ondas que se rebatem nos rochedos.
O cheiro da maresia,
a luz do fim do dia
marcam como um sino
o desate de certas amarras e cordas,
o acolhimento das aflições.
Se sobe ou desce a maré,
não importa, a hora será
a da Virgem Maria,
a dos afogados,
a da necessidade de tragos,
da dor silenciosa que se sofre sem alarde
e sem busca de remédio
... que não há.
Melhor calar,
um momento que seja,
sem que ninguém perceba,
e além das ostras, colher pensamentos,
aqueles que jamais, jamais
se tornarão palavras,
pois os oferecerei como alimento
para os anjos que me levam e trazem.
Desde os anos de menino
em caminhadas solitárias
buscando o ponto mais alto
para olhar o mar
acostumei meus anjos
a ouvir rosas fechadas,
palavras em botões.
Homens e meninos nas pedras colhem ostras.
O sol se reparte em fracos reflexos de despedidas
nas ondas que se rebatem nos rochedos.
O cheiro da maresia,
a luz do fim do dia
marcam como um sino
o desate de certas amarras e cordas,
o acolhimento das aflições.
Se sobe ou desce a maré,
não importa, a hora será
a da Virgem Maria,
a dos afogados,
a da necessidade de tragos,
da dor silenciosa que se sofre sem alarde
e sem busca de remédio
... que não há.
Melhor calar,
um momento que seja,
sem que ninguém perceba,
e além das ostras, colher pensamentos,
aqueles que jamais, jamais
se tornarão palavras,
pois os oferecerei como alimento
para os anjos que me levam e trazem.
Desde os anos de menino
em caminhadas solitárias
buscando o ponto mais alto
para olhar o mar
acostumei meus anjos
a ouvir rosas fechadas,
palavras em botões.
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Dauri Batisti
25 maio 2008
Sílabas
Sinto-a
atravessada na garganta
amarga na língua
querendo tomar voz
dizer-se em palavras
e reclamar tua presença.
Meu orgulho em saliva ácida
quebra-a em sílabas
tentando impedir-me
de dizer o que sinto.
Sau
da
de.
Vou devagar
olhando a paisagem.
Já sei que teus caminhos
se vão bem longe dos meus.
Não há como te encontrar.
O entardecer me entristece
mas depois que aceito tua decisão
o adeus do dia em seu fim me acalma.
Meu olhar e o sol
se guardam para outro amanhecer.
Sinto-a
atravessada na garganta
amarga na língua
querendo tomar voz
dizer-se em palavras
e reclamar tua presença.
Meu orgulho em saliva ácida
quebra-a em sílabas
tentando impedir-me
de dizer o que sinto.
Sau
da
de.
Vou devagar
olhando a paisagem.
Já sei que teus caminhos
se vão bem longe dos meus.
Não há como te encontrar.
O entardecer me entristece
mas depois que aceito tua decisão
o adeus do dia em seu fim me acalma.
Meu olhar e o sol
se guardam para outro amanhecer.
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Dauri Batisti
23 maio 2008
Numa rajada de vento
Desejo um vermelho, um afogueado céu amanhecido
no horizonte dos caminhos que me levam embora,
numa aventura que começou de madrugada numa rajada de vento
quando a noite gemia em despedidas
com suas sombras filhas renegadas de sol.
Tomei um velho mapa apressado que de nada serviu
e com o dia bem alto já estou aqui, longe, não sei onde
num restaurante de beira de estrada,
triste, sentado na calçada, olhando as pessoas
sem saber a que horas chegará outro sopro de alegria
para me por de novo na sorte, no rumo, no destino.
A vida toda tem sido assim.
Sou levado por lufadas de alegria,
ventanias tão ligeiras que me levantam
como palha queimada e me deixam cair cinza.
Outros dias, os pesados, sem ventos,
se alongam por séculos mesmo que em poucas horas
e dominam meus pulmões, controlando o ar que respiro,
oprimindo os meus sonhos, alquebrando-me o andar.
Nem bruxedos, nem rezas, nem ervas, nem fármacos resolvem.
Só as lufadas de alegria, só elas me põem a andar bem.
Vou... mesmo sem rajadas, vou andando a pé.
... são três horas da tarde. Adeus.
Anoitecerei noutro lugar, mesmo que logo ali.
Fica com Deus.
Desejo um vermelho, um afogueado céu amanhecido
no horizonte dos caminhos que me levam embora,
numa aventura que começou de madrugada numa rajada de vento
quando a noite gemia em despedidas
com suas sombras filhas renegadas de sol.
Tomei um velho mapa apressado que de nada serviu
e com o dia bem alto já estou aqui, longe, não sei onde
num restaurante de beira de estrada,
triste, sentado na calçada, olhando as pessoas
sem saber a que horas chegará outro sopro de alegria
para me por de novo na sorte, no rumo, no destino.
A vida toda tem sido assim.
Sou levado por lufadas de alegria,
ventanias tão ligeiras que me levantam
como palha queimada e me deixam cair cinza.
Outros dias, os pesados, sem ventos,
se alongam por séculos mesmo que em poucas horas
e dominam meus pulmões, controlando o ar que respiro,
oprimindo os meus sonhos, alquebrando-me o andar.
Nem bruxedos, nem rezas, nem ervas, nem fármacos resolvem.
Só as lufadas de alegria, só elas me põem a andar bem.
Vou... mesmo sem rajadas, vou andando a pé.
... são três horas da tarde. Adeus.
Anoitecerei noutro lugar, mesmo que logo ali.
Fica com Deus.
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Dauri Batisti
19 maio 2008
Uma possibilidade
Um silêncio grande veio sobre mim
como um espírito ou algo assim que desce.
O que falo, quando falo, me custa,
estabeleço prejuízos irreparáveis,
gasto fortuna que não tenho.
Não há sabedoria, nem escuridão, só mudez.
Um anúncio me foi confiado,
mas recolho o impulso que me formaria a voz.
Guardo o ar que respiro para o que sinto,
algo como amar por amar e rir por viver.
Fez-me o silêncio um estranho,
mas me acostumo assim, outro feito de mim.
Fico fora de um eixo, alterado, crucificado sem dor,
grudado em lentidão nos instantes,
hipnotizado pelas insignificâncias do cotidiano.
Ao mesmo tempo vôo, pássaro ligeiro,
asas com penas levíssimas de prata,
para talvez pousar sobre o girassol de um dia diferente.
Me deixe assim, em silêncio, não me tente animar;
há uma possibilidade de não ser tristeza.
Um silêncio grande veio sobre mim
como um espírito ou algo assim que desce.
O que falo, quando falo, me custa,
estabeleço prejuízos irreparáveis,
gasto fortuna que não tenho.
Não há sabedoria, nem escuridão, só mudez.
Um anúncio me foi confiado,
mas recolho o impulso que me formaria a voz.
Guardo o ar que respiro para o que sinto,
algo como amar por amar e rir por viver.
Fez-me o silêncio um estranho,
mas me acostumo assim, outro feito de mim.
Fico fora de um eixo, alterado, crucificado sem dor,
grudado em lentidão nos instantes,
hipnotizado pelas insignificâncias do cotidiano.
Ao mesmo tempo vôo, pássaro ligeiro,
asas com penas levíssimas de prata,
para talvez pousar sobre o girassol de um dia diferente.
Me deixe assim, em silêncio, não me tente animar;
há uma possibilidade de não ser tristeza.
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Dauri Batisti
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