O sabor que é na lingua
Folhas desverdeadas
folhas embranquecidas
secas lisas mortas-vivas
presas como cachos
uvas as mesmas diferentes
para cada um
guardam o que foi
o sabor que é na lingua
fluidas palavras
asas úmidas de crisálidas
que umedecem minhas vistas
e me impõem ao modo de súdito
o olhar dobrado
diante dele
o livro
13 março 2008
12 março 2008
Vaziez
A dor faz surgir universos,
tantos e estranhos,
inclusive os que agora me atravessam,
mundos não planetas,
espadas de dois gumes,
luas frias e cortantes
afrontando a minha carne
- de que vale a minha vontade? -
como se eu fosse tão somente
o espaço da vaziez por onde giram.
A dor faz surgir universos,
tantos e estranhos,
inclusive os que agora me atravessam,
mundos não planetas,
espadas de dois gumes,
luas frias e cortantes
afrontando a minha carne
- de que vale a minha vontade? -
como se eu fosse tão somente
o espaço da vaziez por onde giram.
Este poema é atravessado, aberto. Poderá ser refeito. Ou deletado.
-
Dauri Batisti
07 março 2008
Gosto mesmo é de desenhar
Detesto poesia.
Seus versos, suas linhas,
suas medidas e algemas,
falando sempre dos mesmos temas,
diluindo significados, embotando expressões,
desprezando a exatidão do silêncio.
Detesto poesia.
Gosto mesmo é de desenhar.
O que agora lês em pressas
são riscos que escaparam da minha mão
desenhos mutantes que nasceram
do desejo de retratar o teu olhar.
O que lês agora também podem ser tremores
(da hora em que inventei um novo jeito de dizer te amo)
que traçaram linhas impensadas,
frutas maduras bem do alto que caíram,
- produzindo um som - virando palavras.
Ah, meu amor, o que desenho é o mundo,
vários mistérios, outro mundo.
Bem maior que qualquer verso,
mais ainda que seu reverso.
É um mundo inconquistável. Compreendas.
Poesia? Detesto!
Meu interesse mesmo é te amar.
Detesto poesia.
Seus versos, suas linhas,
suas medidas e algemas,
falando sempre dos mesmos temas,
diluindo significados, embotando expressões,
desprezando a exatidão do silêncio.
Detesto poesia.
Gosto mesmo é de desenhar.
O que agora lês em pressas
são riscos que escaparam da minha mão
desenhos mutantes que nasceram
do desejo de retratar o teu olhar.
O que lês agora também podem ser tremores
(da hora em que inventei um novo jeito de dizer te amo)
que traçaram linhas impensadas,
frutas maduras bem do alto que caíram,
- produzindo um som - virando palavras.
Ah, meu amor, o que desenho é o mundo,
vários mistérios, outro mundo.
Bem maior que qualquer verso,
mais ainda que seu reverso.
É um mundo inconquistável. Compreendas.
Poesia? Detesto!
Meu interesse mesmo é te amar.
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Dauri Batisti
04 março 2008
Os meios do coração do beija-flor
As penas foram arrancadas com anseios das asas do pequeno beija-flor leveza; as verdes, as azuis e do coração, os meios. Tudo justificado pelo amor à riqueza.
Fez-se das penas parafusos para o trem de ferro que em nostalgia nesta estação, e embaraços, com um frio no peito, parado, espero para seguir viagem para onde-não-sei-o-que-faço.
Os meios do coração, disseram, foram jogados, onde ninguém anda, onde o sonho tanto faz. Desconfio que o terreno onde foram deixados seja o meu alado-azul-esverdeado coração sem paz.
As penas foram arrancadas com anseios das asas do pequeno beija-flor leveza; as verdes, as azuis e do coração, os meios. Tudo justificado pelo amor à riqueza.
Fez-se das penas parafusos para o trem de ferro que em nostalgia nesta estação, e embaraços, com um frio no peito, parado, espero para seguir viagem para onde-não-sei-o-que-faço.
Os meios do coração, disseram, foram jogados, onde ninguém anda, onde o sonho tanto faz. Desconfio que o terreno onde foram deixados seja o meu alado-azul-esverdeado coração sem paz.
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Dauri Batisti
02 março 2008
Flores de erva-arame
O dia termina, observo o errado que irrompe
inesperadamente na minha sagrada plantação;
erva-arame de muitas amarras
em minhas anêmicas rosas desperfumadas.
Decido avançar de peito aberto e tomá-las à mão e arrancá-las
num único impulso, no sangue, na vanglória.
Inesperadamente o errado se levanta em muitos botões
e me ameaça desabrochar em variadas flores pela noite adentro,
que de tão lindas, de tão lindas haverão de me matar
de madrugada, antes da lua ovular para o sol
as primeiras sementes do novo dia. Recuo.
Vejo como são anêmicas minhas rosas
desperfumadas pedras que tão facilmente eu atiro.
O dia termina, observo o errado que irrompe
inesperadamente na minha sagrada plantação;
erva-arame de muitas amarras
em minhas anêmicas rosas desperfumadas.
Decido avançar de peito aberto e tomá-las à mão e arrancá-las
num único impulso, no sangue, na vanglória.
Inesperadamente o errado se levanta em muitos botões
e me ameaça desabrochar em variadas flores pela noite adentro,
que de tão lindas, de tão lindas haverão de me matar
de madrugada, antes da lua ovular para o sol
as primeiras sementes do novo dia. Recuo.
Vejo como são anêmicas minhas rosas
desperfumadas pedras que tão facilmente eu atiro.
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Dauri Batisti
28 fevereiro 2008
Esferas de vidro
As dores são esferas de vidro
que rolam conforme o dia.
As esferas de vidro são dias
que correm de acordo com a sorte.
Os dias são sortes
que se lançam seguindo a lua.
As sortes são luas
que crescem sob a luz dos sonhos.
As luas são sonhos
que também já foram dores.
Os sonhos são dores
que reluzem como esferas de vidro.
As dores são esferas...
As dores são esferas de vidro
que rolam conforme o dia.
As esferas de vidro são dias
que correm de acordo com a sorte.
Os dias são sortes
que se lançam seguindo a lua.
As sortes são luas
que crescem sob a luz dos sonhos.
As luas são sonhos
que também já foram dores.
Os sonhos são dores
que reluzem como esferas de vidro.
As dores são esferas...
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Dauri Batisti
26 fevereiro 2008
Retoma ó homem teus cavalos
(terceira exortação do honorabilíssimo)
Retoma ó homem teus cavalos que se desgarram
e erram por estradas sem surpresas,
em linhas retas, fáceis, em telas planas.
Haverás de chorar o prejuízo
quando tão longe do teu sítio eles estiverem
e não mais souberem contigo o caminho
das montanhas, razão dos teus olhos.
Apeia desses dígitos em que montastes
em levezas, perfumes e planícies de charcos.
Teus cavalos morrem em andanças
sem horizontes, sem amplidões e sem nobreza.
Tu, sem que percebas, morres do mesmo mal.
Num minuto contudo poderás resgatar
a inspiração, o ar livre, a generosidade e manter
a única palavra que importa a um homem: a de honra.
Basta que decidas e tomes a rédea;
Larga o lápis, a caneta, o teclado;
Arranca-te desse mundo rumuroso e retoma teus cavalos.
(Eis mais um poema- exortação de um personagem para o autor do blog)
(terceira exortação do honorabilíssimo)
Retoma ó homem teus cavalos que se desgarram
e erram por estradas sem surpresas,
em linhas retas, fáceis, em telas planas.
Haverás de chorar o prejuízo
quando tão longe do teu sítio eles estiverem
e não mais souberem contigo o caminho
das montanhas, razão dos teus olhos.
Apeia desses dígitos em que montastes
em levezas, perfumes e planícies de charcos.
Teus cavalos morrem em andanças
sem horizontes, sem amplidões e sem nobreza.
Tu, sem que percebas, morres do mesmo mal.
Num minuto contudo poderás resgatar
a inspiração, o ar livre, a generosidade e manter
a única palavra que importa a um homem: a de honra.
Basta que decidas e tomes a rédea;
Larga o lápis, a caneta, o teclado;
Arranca-te desse mundo rumuroso e retoma teus cavalos.
(Eis mais um poema- exortação de um personagem para o autor do blog)
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Dauri Batisti
22 fevereiro 2008
Estrela caída
Iluminada de umas verdades aprendidas na sonolência
ela se deu o direito de ler todos os dias o meu olhar
e interpretar ao bel-prazer a nuvem que vagarosa encobria
o brilho de uma estrela cadente que eu carregava comigo.
Assentada em meritíssima cátedra, sem ouvir meus apelos,
lavrou minha sentença: Saia desta casa!
Pelo viés do meu olhar ela me viu sem me ver,
apressada em mostrar seus conhecimentos e intuições.
O olhar que ela tomou por meu era o dela
e o que nele viu não foi senão o fio traçado pela bala perdida,
aquela que ela detonou num tiroteio festivo
com precipitada certeza
e na opacidade da própria estrela caída.
Iluminada de umas verdades aprendidas na sonolência
ela se deu o direito de ler todos os dias o meu olhar
e interpretar ao bel-prazer a nuvem que vagarosa encobria
o brilho de uma estrela cadente que eu carregava comigo.
Assentada em meritíssima cátedra, sem ouvir meus apelos,
lavrou minha sentença: Saia desta casa!
Pelo viés do meu olhar ela me viu sem me ver,
apressada em mostrar seus conhecimentos e intuições.
O olhar que ela tomou por meu era o dela
e o que nele viu não foi senão o fio traçado pela bala perdida,
aquela que ela detonou num tiroteio festivo
com precipitada certeza
e na opacidade da própria estrela caída.
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Dauri Batisti
20 fevereiro 2008
O jardim na fronteira das lavras
Às seis da tarde tomei o trem
e fui em silêncio até o fundo do desfiladeiro.
Logo avistei o jardim na fronteira das lavras
onde se cortam as palavras.
Não precisei correr, bastava o bom passo,
aquele que o amor-de-escrever me fazia dar
mesmo no escuro, para descobrir a pedra exata
para a palavra certa. Leve.
Retornei no alvorecer com essapalavra que lá talhei
com sopros e respiros suaves e outros profundos
na pedra menos áspera que encontrei:
"Já que Deus te colocou na minha porta
te convido a entrar e tomar parte
da minha pedra-poesia-pão.
SEJA BENVINDO!"
Às seis da tarde tomei o trem
e fui em silêncio até o fundo do desfiladeiro.
Logo avistei o jardim na fronteira das lavras
onde se cortam as palavras.
Não precisei correr, bastava o bom passo,
aquele que o amor-de-escrever me fazia dar
mesmo no escuro, para descobrir a pedra exata
para a palavra certa. Leve.
Retornei no alvorecer com essapalavra que lá talhei
com sopros e respiros suaves e outros profundos
na pedra menos áspera que encontrei:
"Já que Deus te colocou na minha porta
te convido a entrar e tomar parte
da minha pedra-poesia-pão.
SEJA BENVINDO!"
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Dauri Batisti
17 fevereiro 2008
Percebi em bytes teu olhar
(segunda exortação do honorabilíssimo escriturário corregedor)
O que pretendes na ilusão é o singular,
mas obténs dobras e redobras em papel de pão
do que foi escrito com ouro de Ofir em seda do oriente.
Tu és mais um que fala. Só isso.
Falas o que os trovadores lindamente cantaram.
Amarrotas no enfado o que já foi provençal.
Repetes sem fé o que profetas proclamaram,
sussurras com pigarros o que melhor as crianças gaguejam.
Leva-te esse infernal rumor de feiras e mercados.
Teu coração se enche com palavreados,
espantalho pronto para uma faísca
que pode tudo transformar em nada.
... silêncio...
Há alguém mais aqui... silêncio!
És tu, ó terceiro, que te intrometes?
Percebo em bytes teu olhar.
Se és parceiro desse "poeta" , não há saída,
responde: por que me estás a ler?
(segunda exortação do honorabilíssimo escriturário corregedor)
O que pretendes na ilusão é o singular,
mas obténs dobras e redobras em papel de pão
do que foi escrito com ouro de Ofir em seda do oriente.
Tu és mais um que fala. Só isso.
Falas o que os trovadores lindamente cantaram.
Amarrotas no enfado o que já foi provençal.
Repetes sem fé o que profetas proclamaram,
sussurras com pigarros o que melhor as crianças gaguejam.
Leva-te esse infernal rumor de feiras e mercados.
Teu coração se enche com palavreados,
espantalho pronto para uma faísca
que pode tudo transformar em nada.
... silêncio...
Há alguém mais aqui... silêncio!
És tu, ó terceiro, que te intrometes?
Percebo em bytes teu olhar.
Se és parceiro desse "poeta" , não há saída,
responde: por que me estás a ler?
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Dauri Batisti
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