Sou um templário perdido
bem perto de Jerusalém.
A cruz no meu hábito se apaga,
me apago
como fogo de acampamento
que abandonei.
Sei que pedis mais
do que meus passos agora podem andar.
Pedistes honra e te dei.
Pedistes pureza e me mantive assim.
Pedistes coragem e lutei.
Mas agora
Jerusalém está ali,
vazia.
Descobri que estais
noutro sitio, para lá das dunas,
lá onde as crianças choram.
13 agosto 2007
12 agosto 2007
Réquiem besta
Tu és uma semente
que caiu bem longe
de onde poderias criar raízes.
Caíste no meio de umas formigas
fortes, fedorentas, valentes.
Pegaram-te antes que sentisses o frescor da terra
e tremesse dentro tua força
no desejo por terra, sol e água.
Elas te levaram e eu te acompanhei.
Queria te libertar, mas como?
Tu serias uma bela árvore.
Rezei para que tua pele endurecesse
e lá no buraco elas não conseguissem te mastigar.
Num dia de chuva a umidade chegaria
e tu explodirias todo o formigueiro com tua força.
Entretanto,
teu broto é tenro,
tua raiz saborosa.
Não tem jeito.
Não me escutas, pois dormes feliz.
Para ti canto um réquiem besta
tropeçando minhas patas
nas patas de outra formiga
- outra escrava -
que mais doida e obstinada do que eu
segue seu destino e teu enterramento.
que caiu bem longe
de onde poderias criar raízes.
Caíste no meio de umas formigas
fortes, fedorentas, valentes.
Pegaram-te antes que sentisses o frescor da terra
e tremesse dentro tua força
no desejo por terra, sol e água.
Elas te levaram e eu te acompanhei.
Queria te libertar, mas como?
Tu serias uma bela árvore.
Rezei para que tua pele endurecesse
e lá no buraco elas não conseguissem te mastigar.
Num dia de chuva a umidade chegaria
e tu explodirias todo o formigueiro com tua força.
Entretanto,
teu broto é tenro,
tua raiz saborosa.
Não tem jeito.
Não me escutas, pois dormes feliz.
Para ti canto um réquiem besta
tropeçando minhas patas
nas patas de outra formiga
- outra escrava -
que mais doida e obstinada do que eu
segue seu destino e teu enterramento.
-
Dauri Batisti
11 agosto 2007
Um corisco no chão
São pedaços,
cacos,
fragmentos de sonhos
o que tu vives.
Eu sei, pois estou fora deles
- rocha que sou.
Falo de dentro do céu
de onde qualquer pedrinha avista
o limite da tua ilusão.
Vai,
goza,
verás que tudo foge
no instante que tens
e que não terás.
Mas..., tu não sabes
e eu confesso:
É o despeito em mim.
Tu não conheces mais a aspereza que pesa
nem o silencio do espaço.
Rocha não és mais.
Ah, desejo uma explosão
que me faça cair
- rocha rodopiante e sem rumo -
em chuva de fogo sobre o teu planeta.
E como pó, mineral
que teu sangue precisa,
plasmar o coração do filho que conceberás
e através dele olhar para o céu
pra projetar nele
o que só na terra se encontra,
o paraíso onde as rochas
ganharam alma
e perderam o silêncio.
Um corisco no chão,
- sou ..., meu Deus! -
por isso essa ânsia aqui
e a barulheira que escuto,
palavras dentro de mim.
Ah, tu conheces um mestre
que ensine a um aturdido humano
a esvaziar a mente?
cacos,
fragmentos de sonhos
o que tu vives.
Eu sei, pois estou fora deles
- rocha que sou.
Falo de dentro do céu
de onde qualquer pedrinha avista
o limite da tua ilusão.
Vai,
goza,
verás que tudo foge
no instante que tens
e que não terás.
Mas..., tu não sabes
e eu confesso:
É o despeito em mim.
Tu não conheces mais a aspereza que pesa
nem o silencio do espaço.
Rocha não és mais.
Ah, desejo uma explosão
que me faça cair
- rocha rodopiante e sem rumo -
em chuva de fogo sobre o teu planeta.
E como pó, mineral
que teu sangue precisa,
plasmar o coração do filho que conceberás
e através dele olhar para o céu
pra projetar nele
o que só na terra se encontra,
o paraíso onde as rochas
ganharam alma
e perderam o silêncio.
Um corisco no chão,
- sou ..., meu Deus! -
por isso essa ânsia aqui
e a barulheira que escuto,
palavras dentro de mim.
Ah, tu conheces um mestre
que ensine a um aturdido humano
a esvaziar a mente?
-
Dauri Batisti
10 agosto 2007
Esqueço o poder dos espelhos
Quando estou com os jovens
sofro de um mal, uma síndrome de esquecimento,
não um qualquer.
Nem deficiência de memória é.
Esqueço o poder dos espelhos.
Mal me vejo.
Somente sinto o empurrão
como se eu fosse um filhote já bem penado.
Os pais com o bico jogam-no
para fora do ninho,
para o vazio do ar
e para o prazer do vento.
sofro de um mal, uma síndrome de esquecimento,
não um qualquer.
Nem deficiência de memória é.
Esqueço o poder dos espelhos.
Mal me vejo.
Somente sinto o empurrão
como se eu fosse um filhote já bem penado.
Os pais com o bico jogam-no
para fora do ninho,
para o vazio do ar
e para o prazer do vento.
-
Dauri Batisti
07 agosto 2007
Nascer
Acordei
e um clarão invadiu minha consciência.
Compreendi tudo num instante
naquele mesmo em que tudo esqueci.
Ficou uma nostalgia
cor de tarde oca,
fim de dia longe da família,
entrada de noite sem festa e sem fogueira,
fria.
Acordei e sei
Que caí numa hora
nenhuma daquelas do relógio.
Hora de dor
de quem nasce já tendo nascido
sem nunca jamais entender
que nascimento foi esse
e para quê.
Acordei e decidi
recolher nos campos do meu vagante rumo
em meio ao joio farto
cada poesia, único grão
para o pão capaz de me nutrir.
e um clarão invadiu minha consciência.
Compreendi tudo num instante
naquele mesmo em que tudo esqueci.
Ficou uma nostalgia
cor de tarde oca,
fim de dia longe da família,
entrada de noite sem festa e sem fogueira,
fria.
Acordei e sei
Que caí numa hora
nenhuma daquelas do relógio.
Hora de dor
de quem nasce já tendo nascido
sem nunca jamais entender
que nascimento foi esse
e para quê.
Acordei e decidi
recolher nos campos do meu vagante rumo
em meio ao joio farto
cada poesia, único grão
para o pão capaz de me nutrir.
-
Dauri Batisti
Amor, o mar
Doido, sentia-se,
desorientado, andando apressado
na tortuosa e curta imensidão da vida.
Um poema feito de vez.
Os pés empoeirados,
descalços e mais grossos que o solo,
vencendo com intrepidez
a aspereza do cascalho.
Onde a palavra podia ser outra
ficou aquela mesma.
A primeira, não pensada,
insurgida de súbito
sem escolha, sem melodia,
como um grito farpado
de dor.
Dor, amor, o mar.
Quem sabe essas palavras
façam outro caminho.
Ele tem que seguir,
ou perseguir, distante verso.
Na praia, talvez,
ainda construa uma casa.
desorientado, andando apressado
na tortuosa e curta imensidão da vida.
Um poema feito de vez.
Os pés empoeirados,
descalços e mais grossos que o solo,
vencendo com intrepidez
a aspereza do cascalho.
Onde a palavra podia ser outra
ficou aquela mesma.
A primeira, não pensada,
insurgida de súbito
sem escolha, sem melodia,
como um grito farpado
de dor.
Dor, amor, o mar.
Quem sabe essas palavras
façam outro caminho.
Ele tem que seguir,
ou perseguir, distante verso.
Na praia, talvez,
ainda construa uma casa.
-
Dauri Batisti
01 agosto 2007
Trocar de olhar
Essa viagem longa
- por entre paisagens cinzas,
rios sem água,
que se avistavam por seus olhos -
fazia-o pensar que outro dia seria outro peso,
na mesma sina de ser infeliz.
No entanto ele ouviu uma canção sem graça
que vinha chorosa sabe-se lá de onde
de um vazio qualquer,
de um porão sem entrada de luz
ou de um peixe agonizando fora d’água.
Depois de tantas viagens,
Ele ouviu.
(Antes tarde do que nunca).
Ouviu e decidiu que choraria com a música.
Sim, choraria por ter perdido tanto tempo
em acreditar numa sina que o fazia viver
uma vida infeliz.
Ele contou isso pra me animar.
Pra me convencer a trocar de olhar.
Mas, não sei...
Não sei se é tão simples.
Será que as cores correm ainda
por baixo da cinza,
dos leitos secos,
rios que outrora
foram as minhas fontes?
- por entre paisagens cinzas,
rios sem água,
que se avistavam por seus olhos -
fazia-o pensar que outro dia seria outro peso,
na mesma sina de ser infeliz.
No entanto ele ouviu uma canção sem graça
que vinha chorosa sabe-se lá de onde
de um vazio qualquer,
de um porão sem entrada de luz
ou de um peixe agonizando fora d’água.
Depois de tantas viagens,
Ele ouviu.
(Antes tarde do que nunca).
Ouviu e decidiu que choraria com a música.
Sim, choraria por ter perdido tanto tempo
em acreditar numa sina que o fazia viver
uma vida infeliz.
Ele contou isso pra me animar.
Pra me convencer a trocar de olhar.
Mas, não sei...
Não sei se é tão simples.
Será que as cores correm ainda
por baixo da cinza,
dos leitos secos,
rios que outrora
foram as minhas fontes?
-
Dauri Batisti
30 julho 2007
Estranha vida bela
A sala não comportava
a espera da noticia que o médico daria.
A morte chegara
pra levar ao “Tudo” mais um.
Mas ainda não.
Para lá da porta tentavam
o resgate do respiro e do tambor do coração.
Tentavam espantar para longe aquela cor
E a imobilidade do corpo.
Na sala de espera só ela.
Ninguém mais ocupava lugar,
senão ela, a espera,
que apertava o coração,
o baço, o fígado, o aço dos nervos
e compactava a vida toda num momento só,
de solidão.
Nesse momento
de minutos maiores que um longo ano ruim,
aquela porta de duas bandas se abriu,
o médico apareceu e deu a boa noticia:
A vida venceu.
Que alívio!
Na infinitude das eras do universo
O pouco de tempo que se tem com a vida
não permite a ninguém
ter todo o conhecimento dela.
Estranha e bela sempre será.
Em verdade, em verdade lhe digo – me disse a vida –
tudo passará e o Tudo chegará.
Mas tenho minhas desconfianças que o Tudo seja nada.
Perdoe-me o medo, ó Tudo!
a espera da noticia que o médico daria.
A morte chegara
pra levar ao “Tudo” mais um.
Mas ainda não.
Para lá da porta tentavam
o resgate do respiro e do tambor do coração.
Tentavam espantar para longe aquela cor
E a imobilidade do corpo.
Na sala de espera só ela.
Ninguém mais ocupava lugar,
senão ela, a espera,
que apertava o coração,
o baço, o fígado, o aço dos nervos
e compactava a vida toda num momento só,
de solidão.
Nesse momento
de minutos maiores que um longo ano ruim,
aquela porta de duas bandas se abriu,
o médico apareceu e deu a boa noticia:
A vida venceu.
Que alívio!
Na infinitude das eras do universo
O pouco de tempo que se tem com a vida
não permite a ninguém
ter todo o conhecimento dela.
Estranha e bela sempre será.
Em verdade, em verdade lhe digo – me disse a vida –
tudo passará e o Tudo chegará.
Mas tenho minhas desconfianças que o Tudo seja nada.
Perdoe-me o medo, ó Tudo!
-
Dauri Batisti
28 julho 2007
Fogo abortado
Sei não...
minha religião é outra.
É qualquer coisa assim
que diz que é perda de tempo querer ser alguém.
O segredo é ser ninguém,
e pegar todo mundo de surpresa
com um belo poema
que pareça inspirado
mas que foi escrito com lascas de pedra
noutra pedra
de onde surgiu um cheiro forte de fogo
abortado.
minha religião é outra.
É qualquer coisa assim
que diz que é perda de tempo querer ser alguém.
O segredo é ser ninguém,
e pegar todo mundo de surpresa
com um belo poema
que pareça inspirado
mas que foi escrito com lascas de pedra
noutra pedra
de onde surgiu um cheiro forte de fogo
abortado.
-
Dauri Batisti
26 julho 2007
Entre uma coisa e outra
Entre uma coisa e outra
se via exausto
como se a energia do corpo
tivesse se posto com o sol.
Mas havia ainda muito trabalho
a ser feito naquele computador.
A ponte já se iluminava linda.
Avistava-a do prédio,
e ela se assemelhava a ele
entre uma coisa e outra.
Contentou-se por um momento com a semelhança
e esperou como quem tem fé,
que uma beleza se revelaria na sua vida comum.
Talvez ele conseguisse chegar à garota,
quem sabe a loteria acumulada seria sua.
Algo extraordinário de bom viria,
dessa vez viria,
como Deus na vida do arameu errante.
Logo se desencantou.
Percebeu que a ponte ligava
e ele perdia-se
entre uma coisa e outra.
se via exausto
como se a energia do corpo
tivesse se posto com o sol.
Mas havia ainda muito trabalho
a ser feito naquele computador.
A ponte já se iluminava linda.
Avistava-a do prédio,
e ela se assemelhava a ele
entre uma coisa e outra.
Contentou-se por um momento com a semelhança
e esperou como quem tem fé,
que uma beleza se revelaria na sua vida comum.
Talvez ele conseguisse chegar à garota,
quem sabe a loteria acumulada seria sua.
Algo extraordinário de bom viria,
dessa vez viria,
como Deus na vida do arameu errante.
Logo se desencantou.
Percebeu que a ponte ligava
e ele perdia-se
entre uma coisa e outra.
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Dauri Batisti
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