Sombrinha amarela com flores azuis.
– Olha, me olha, mira, vira, louco,
outro que sai de ti. Sou eu. Tu não vês?
Estou aqui. Neste sinal, farol,
luz de encruzilhadas.
Não sou navio, levo nos porões o que ficou
no lugar do que perdi. Ego,
ilha, alma, algo. O que faço?
Peço dinheiro. Está chovendo muito,
tenho esta sombrinha. Achei.
O que é a vida, o que é.
A sombrinha te chamou a atenção,
na mão de um rapaz novo e bonito.
Te explico, é porque sou artista. A roupa suja
não me cai bem. Eu sei. Não repare.
Tu me vais fotografar?
É amarela,
com flores azuis.
Danço entre os carros. Não,
corro. Um dia caí da escada do avião
bati com a cabeça e
me trouxeram pra cá,
mas sou de lá. Não posso voltar,
minha cidade já foi tomada pelo mar. Fico triste.
Aqui sou sozinho, mas me enfelizo,
me embelezo, me enjubilo, me encorajo
com os dias e as poesias que recolho
andando pelas ruas. Repare, olhe bem,
fixe o olhar num canto qualquer,
e verás um rastro
dos velhos caminhos dos nossos pais,
dos dias em que eles sonhavam, antes de nós.
Tu me reconheceste. Eu sei. Te esperava.
Haverias de me levar contigo?
Queres minha sombrinha?
Queres? Toma. A sombrinha te segura,
te equilibra. Mas tens que inventar
palavras bonitas sempre que te sentires down.
Tu me olhas. Tu que choras,
ou são águas dessa chuva?
2 horas atrás


