A vez do amor
Tomar o barco à tarde e remar. Ir até a ilha.
Ir para ver de lá o sol se esparramar nos confins.
Ir para olhar e escrever num caderno de capa dura,
num caderno bem guardado debaixo de uma pedra,
o desenho das águas, a história das estrelas e conchas,
o enredo dos barcos e praias, a música de cada coisa.
De tanto repetir o mesmo caminho virou esquisito
na boca do povo, no olho da vila. Um menino ainda.
Se falava muito do tal caderno que ninguém via,
onde estariam escritos mistérios e oráculos
aprendidos com a avó quando viva. Agora era só.
Mas dele também se dizia uma verdade
bonita como marlim azul:
ninguém sabia pescar como ele,
só ele mesmo entendia onde os cardumes em festa
se perdiam nas tramas das redes.
Num dia de vermelho arroxeado no horizonte,
ele não voltou da ilha. O barco também sumiu.
Lá se encontrou o caderno num local bem visível,
com uma única página escrita.
Estava escrito: sei escrever, mas não escrevi.
Eu só traçei destinos, somei o que vi a cada dia
e embelezei a ilha com o gesto da minha mão.
Brinquei de maestro diante de uma imensa orquestra.
Agora é a vez do amor, é preciso partir.
2 horas atrás


