Tenho que me acender
Tenho que me acender.
Já é hora de parar de complicar.
Não existe mais essa...
O que existe é outra coisa.
Sim, essa de poetas...
O que existe é a falta,
o que existe é a fala, de muitos,
gemidos, sem estilo,
(estilo? o que é isto?)
em dialetos vários,
de vários modos,
rumores, gaguejos.
Gritando, gritando, gritando,
estão todos gritando.
Os livros de poesia estão no canto,
num canto calado, livros calados
no canto das livrarias.
Elas (quem? As poesias, talvez) morrem
nos livros. Não se vende, não se compra, nem se doa.
O meu grito, rumor, pigarro,
escarro não cuspido, expresso aqui,
peço licença ao dauri
e digo... é um pedido o que tenho,
é o que sou. Sou um pedido.
O que posso pedir? Um olhar,
dois amores, não vou negar,
ou um grande amor, muitos olhares,
brasas, pomares, mares, visões.
O que quero é sair correndo
e te alcançar ao ar livre e te abraçar,
nos campos ou na praia e depois,
só depois (quanto tempo não sei)
me levar para escrever
qualquer coisa (sem valor, dirão.
O que vale o quê? Perguntarei.)
só pelo prazer (ou pela dor)
de ressentir a vida.
Só o acendimento alonga a vida.
2 horas atrás


