Caminhos e escolhas
À tardinha quando a luz do sol vira tristeza
dei de cara com um passarinho,
um pequeno de peito amarelo,
parecia que ia falar... de tão perto.
Olhou-me pelos olhos adentro
e mais do que devia descobriu
o que eu não sei... ou o que sou.
Desviou o olhar e se foi em retirada.
Eu, cá, que fiquei, não compreendi
que sorte de amor ele me ia falar,
pois de amor só podia discorrer
um de peito amarelo, ave tão pequena,
que de resto, de resto, além das penas,
ele só era mesmo um coração a bater... ou a olhar.
Mas um outro de peito azul logo se aproximou
e me olhou chilreando o que compreendi
como se com voz acabasse de falar.
Chamou-me de tolo e me mandou escutar
os porcos que de fome grunhiam ao me redor.
Pensei, quer saber de uma coisa,
vou-me embora para o Wyoming.
Agarrada na garganta
Há uma palavra aqui
bem aqui,
agarrada na garganta.
Já falei o que penso
mas ela não saiu.
Já falei o que sinto
ela não saiu.
Já gritei e pigarreei,
nada aconteceu.
Já rezei um Pai-nosso
e ela nem se moveu.
Escrevi isto aqui
e ela nem se tocou.
Não me dói, nem me incomoda
só me provoca e me incita
a escrever outra palavra.
Mas outra agora é que não quero.
Se eu beber água ela vai ver...
Amanhã sem ninguém saber
vou mijá-la... e não direi
absolutamente nada.
Um fio de...
Estou com preguiça,
uma preguiça danada,
uma vontade de nada. Fazer?
Fazer o quê? eu não planto soja;
eu não planto coca; eu não planto cana.
Eu cato sementes na estrada do porto.
Mas ando pensando em plantar
uns pés de algodão.
Eu preciso de um fio.
Preciso fazer alguma coisa, eu sei.
Resistir e fazer é ser solidário,
é até ter prazer
com aqueles que ainda nascerão
depois que eu morrer.
Estou com preguiça,
uma preguiça danada,
uma vontade de nada. Fazer?
Fazer o quê? Acho que ainda acredito em saídas,
por isso essa idéia de plantar
uns pés algodão.
Eu só preciso de um fio.
2 horas atrás


