Há que se escrever não sei.
Há que se escrever não sei para quê.
Há que se escrever para se poder viver.
Há que se escrever o verbo haver.
Tenho aqui uma poesia
que acabei de ler e no peito
uma vontade de dizer,
mas nem sei. Escrever é... me por na estrada.
Talvez seja melhor ficar sentado,
dispor um bom discurso,
lindo e trapaceiro,
e falar baixinho
para que eu não escute a mim mesmo.
Ou falar palavrões bem alto,
dar nomes diversos aos órgãos do sexo,
e angariar uma simpatia fácil.
Eu não concordarei, contudo
com a falsa devoção e a conversa
que assim direi. Mas na verdade
eu sinto que ao escrever me falo certo.
Cada palavra é uma máscara que reconheço,
uma por uma. Vou montando a exposição
dos meus embustes, meus personagens
minhas pessoas várias, meus eus
em paredes com muitos pregos.
Hei de me ver. Não é tão certo,
já que para cada máscara reconhecida,
outras são criadas. Haja estrada!
Você também há de se ver, em parte.
O que não cabe, entorna
e se mostra, olhe.
O verbo haver sempre retorna,
com o poder, e a maciez
que não há no verbo ter.