Quando veio aquele trem
ele largou a foice e correu,
se jogou no chão e estabeleceu
seu olhar na mesma linha dos trilhos.
O tremor lhe atravessou até a língua,
suas mãos se tornaram garras no chão,
seus olhos, escancarada boca de forno
e riacho pequeno e espumoso
umedeceu o capim.
Depois que o trem passou
ele viu o lado de lá onde vivia,
ou só morava:
o mesmo terreiro seco e varrido,
o mesmo curral lamacento,
a mesma casa pequena,
pai, mãe, irmãos lá.
E o sol caindo, caindo,
tudo parado, tudo caindo
na mansa boca da noite.
O que ele esperava,
ou sonhava,
era tomar o trem e se ir
não sabia para onde,
como se houvesse um longe
onde fosse possível fugir
daquele trem da alma,
ou do corpo - quem sabia?
Tão certo quanto o trem
que passava todo dia
quem passava era ele
... que ficava
sem saber a que horas
aquele outro voltaria.
1 hora atrás


